domingo, 24 de julho de 2011

É o mundo


Olá pessoal! Vamos a mais uma semana em Mumbai! Na segunda-feira nada demais a não ser uma criaturinha que estava sentada no banco da frente no ônibus em que eu estava. Uma menininha que não parava quieta e ficava cantarolando o alfabeto ocidental em inglês de um jeito tão bonitinho que eu já estava vomitando altos arco-íris com aquilo. A criaturinha acho que era uma das crianças mais bonitas que já vi na Índia (é pessoal, aqui tem muita gente feia, perdoem minha sinceridade se algum indiano sabe português ou se está usando o google tradutor de alguma forma pra ler isso aqui), pensem, pele bem escura, cabelo absurdamente liso e mais absurdamente ainda preto, do jeito que é o esteriótipo das garotas mais velhas que acho bonitas aqui. Falando nisso às vezes no meio de milhões de meninas magras, sem bunda e esquisitas, vez em quando vejo umas com o esteriótipo dessa garotinha e com um tipo de olho que eu nunca vi no brasil de maneira alguma, é um tipo de castanho muito claro, às vezes até penso que é lente de contato, pra ser possível aquilo.

Enfim, algo que quero acrescentar neste blog é um pequeno puxão de orelha nos brasileiros. Olha, eu vi a garotinha cantando muito bem todas as letras do alfabeto em inglês e além disso, todo lugar que você vai sempre tem alguém lendo algum jornal em inglês. Muita gente, mas muita gente mesmo ou fala inglês (tá, tudo bem, com um sotaque horrível, às vezes me estresso por não conseguir entender) ou ao menos têm noções básicas de inglês (calma, eu posso estar enganado já que estou em Mumbai, a 'São Paulo' da Índia, num é a capital, mas as coisas acontecem aqui primeiro). Já no Brasil eu acho o cúmulo quando alguém faz o comentário do tipo 'Que chique! Você fala inglês!', pessoal, vamos mudar essa mentalidade! Falar outras línguas não é uma questão de querer ser melhor, mais importante ou para se exibir. É questão de querer ser um cidadão mundial!

Saber falar inglês e outras línguas faz você ser capaz de dividir experiências com pessoas que, caso você não souber falar pelo menos inglês, nunca iriam conhecer você, rir com você ou questionar as coisas da vida, como fazemos com nossos amigos. Então, peço a quem tem a oportunidade de aprender inglês, espanhol e as outras línguas (mas, por favor, no mínimo o inglês), leve a sério! Eu fico chateado porque isso já começa de criança, as escolas não aplicam um método para que você saia da escola capaz de se comunicar em inglês, ou seja, um grande desperdício de tempo e dinheiro! Porque não faz sentido, dá tempo sim, se ensinassem direitinho desde criança, no fim do terceiro ano do ensino médio qualquer pessoa seria capaz de falar em inglês. Não digo ser um falador ou escritor perfeito, eu mesmo passo longe disso, mas pelo menos o suficiente para se virar!
Eu lembro que em toda minha vida escolar, apenas no segundo ano do colégio que eu estudava, houve uma aula que o professor passou um texto de revista em inglês para agente explicar em português mesmo o que entendeu do texto. Cara! O que teve de colega meu cdf que tirava notas muito melhores que eu e que foram incapazes de descrever o que tinham lido de forma natural, como se tivessem lido em português, foi impressionante!

As pessoas não acreditam em mim até hoje que eu aprendi inglês jogando video-game, sério! Eu peguei um desses jogos de RPG (final fantasy 7), tomei vergonha e fui lendo as falas e aprendendo muitas palavras pelo contexto. Minhas notas de inglês no colégio deram um salto! Mas estou pagando o preço disso até hoje, já que aprendi a falar errado um bocado de palavras e meu sotaque é muito carregado. Porém, estou melhorando bastante! Antes de vir pra Índia assisti muitos seriados sem legenda até conseguir ter um nível de escuta aceitável (mas, eu comecei com seriados com legenda em inglês, vamos lá pessoal, é só uma questão de ir evoluindo a cada passo!). Então pessoal, só pra encerrar esse puxão de orelha e voltar à experiência Índia, por favor, aprenda inglês se você tem a oportunidade, não é esse sacrifício todo, eu aprendi me divertindo, experimentem ler textos em inglês, use o google tradutor quando não conseguir pegar a ideia toda no texto, não se preocupe se você não sabe todas as palavras, mais tarde aquela palavra vai fazer tanto sentido que você às vezes num vai saber nem como traduzir ela pro português. Quando isso acontecer é justamente quando você começou a aprender uma outra língua de verdade.

Enfim, na terça-feira eu me mudei para onde estou morando. Em Kanjur Marg, muito próximo de Powai (aquele lugar bacana de Mumbai onde temos calçadas amplas e ruas limpas). O apartamento é bem legal, tem tudo que preciso e tem uma boa aparência. Na rua tem mercearia, lavanderia e mais ou menos há uns 500 metros tem uma dessas lojinhas que vendem mé e o incrível suco de cevadis indiano! A cervejinha Kingfisher! Que, como já disse, não é lá essas coca-cola toda, tem 5% de álcool e é da mesma marca de uma companhia aérea. Eu acho que já contei isso aqui, mas imaginem, que legal, cerveja da TAM! Estranho seria, não? Bom, tenho onde lavar a roupa, onde dormir confortavelmente e onde comprar o mé. Então agora posso viver os próximos 11 meses na Índia, só preciso sobreviver à saudade absurda!

Sério pessoal, eu nunca soube o que é saudade até hoje! Tudo bem, se eu tivesse viajando e voltasse mês que vem, nah, minha mãe sentiria saudades, mas eu ficaria tranquilo, mas cara, é um ano! Muita água rola por debaixo da ponte em um ano! Acho que saudade é isso, toda vez que eu escuto músicas ou passo por situações que lembrem qualquer pessoa, seja meus pais, irmãos, amigos ou alguma das garotas que volta e meia povoam a minha mente, eu sinto bem mais forte aqui. Enfim, vamos voltar ao que interessa a vocês!

Voltando ao assunto apartamento. Estou dividindo o apartamento com Tiburce, um africano de Benin. A língua materna dele é francês. Ele é bem legal e tranquilo de conviver, já conversamos sobre como fazer esse apartamento funcionar direito, já definimos regras e estamos indo bem. O mais legal é que no sábado ele falou no facebook dele, em francês, claro: 'o Leonardo do Brasil diz que eu só preciso falar português pra ser brasileiro, já eu digo que ele é praticamente um africano!'. No mais, pretendemos trazer mais 2 pessoas para dividirmos a conta no fim do mês. É tranquilo, cabe esse povo, meu quarto é espaçoso e o apartamento tem 2 quartos e 2 banheiros, ou seja, meio quarto e meio banheiro pra cada, tá massa!

Bom, na quarta-feira e quinta-feira, nada muito relevante aconteceu a não ser as comidas aqui e ali que mostrei no facebook. Eu sei que por enquanto, sobre a comida indiana eu digo que não encontrei ainda nada que eu possa dizer 'nossa, faço questão de lá no Brasil ir ao shopping comer isso num restaurante de comida indiana!', porque assim, apimentado por apimentado, prefiro comida mexicana! Tá, eu ainda não fui no México provar comida original, o que tenho como referência é o Mexicano da rebiboca da parafuseta lá pro lado do aeroporto em Aracaju, o Texmex lá em Salvador e uma lanchonete mexicana onde comi lá em Curitiba. No mais, nada aqui ainda me empolgou muito, mas eu continuo provando de tudo, porque é sempre bom ir experimentando as coisas, vai que eu encontre algo realmente gostoso! Foi assim que descobri sushi e fiz amigos que diziam que não queriam comer sushi, sem nunca ter comido, e que agora comem e adoram!

Na sexta-feira recebemos a visita do 'landlord' (essa palavra pra mim sempre soa estranha, muito estranha, porque ao pé da letra seria 'senhor das terras', putz). Tentei parecer ser um cara sério e centrado, até 'I acted like armless John' (seria assim em inglês?) dizendo que eu tenho uma noiva no Brasil, só pro cara num desconfiar que algum dia eu vá transformar o apartamento dele num cabaré. Resolvemos todas as documentações e taxas e agora eu oficialmente tenho um cafofo na Índia. O dono do apartamento aparentemente gostou da gente (eu e o Tiburce somos ótimos atores!). Depois disso fomos comer um Chicken Maharaja Mac, porque não? O legal é que eu fui liberado e não precisei ir pro trabalho. Então, fui na lojinha, comprei umas cervejinhas e fui estudar alemão, sim! Se beber não dirija, se for beber estude línguas! Tudo flui melhor, meu inglês fica uma beleza, eu lembro de uma vez eu ter esquecido que tinha prova no outro dia, e que uma amiga minha só foi me lembrar umas 8 da noite na sexta, e a prova era sábado, pois! Eu fui pro bar com os exercícios e fiz tudo tomando cerveja e comendo amendoim. Tirei 9,5.

No sábado eu tive que ficar de castigo no apartamento esperando o marceneiro vir concertar a porta do quarto do Tiburce. Então almocei um incrível Cup Neodles sabor galinha caipira que trouxe do Brasil. Mais tarde fomos no R-city Mall em Ghatkopar. O plano era de lá irmos pra Andheri pegar um trem para ir num tal de Blue Frog. Uma boate onde supostamente estariam o pessoal do ACE Program. Mas quando eu vi no maps onde ficava... cara, ficava onde Judas perdeu as botas, um pouco depois da Puta que pariu fazendo o retorno na caixa prego, isso sem esquecer de cortar caminho na casa do chapéu! Ou seja, muito além da casa do caralho (fica depois de Churchgate, lembram aquele lugar lá do outro lado de Mumbai?). Além disso, se você chegasse lá após as 9pm você teria que pagar 500 Rs. (R$17,50). Pra encerrar duas da manhã e ter que pagar 300 Rs. (R$10,50) por cada garrafinha de cerveja? De jeito nenhum! Eu tenho uma coisa chamada juízo. Oxente, tá com a porra? Olhei pro africano e disse: 'bora pro ap, você chama alguém aí e agente toma umas cervejinhas por lá mesmo'.

Recebemos a visita do peruano Fabricio e de sua namorada da Rússia, esqueci-o-nome-delóvisk. Pessoal, foi muito legal conversar com esse povo. Imaginem, um brasileiro, um africano, um peruano e uma russa, todo mundo conversando e se entendendo. Nós, enquanto bebíamos (sacrifiquei um pouco da minha cachaça, minha 51, que trouxe, que por sinal o peruano disse que custa U$20,00 no país dele!) conversamos sobre o que pensamos sobre nacionalidades, sobre o povo indiano, sobre como às vezes eles fazem perguntas indiscretas como 'onde você está indo agora?', 'com quem você estava falando no telefone' ou, pior ainda, 'quanto você está ganhando por mês?'. É, pessoal, qualquer hora eu perco a paciência e mando um 'it's none of your business, sorry' ('desculpe, não é da sua conta'), mas por enquanto eu uso a técnica do 'act like armless John' e desconverso. Mas o ponto principal da conversa foi que chegamos ao consenso de que fazemos parte de uma camada da juventude mundial que está tendo oportunidade e que está convergindo para um tipo de pensamento. Pra mim foi de arrepiar ver aquelas pessoas dividir pontos de vista tão parecidos com os meus, de ver a vida de um jeito muito próximo, como se tivessem vindo do mesmo país. Todos falaram de seus governos corruptos, da pobreza em seu país, dos que têm e dos que não têm oportunidade. Pra mim o especial dessa experiência está sendo isso. No escritório eu vi uma situação que me deixou revoltado por dentro, eu realmente queria ter dado uma bronca nessa pessoa. A situação foi que uma menina viu meu facebook e viu que tinha um comentário do meu pai, e ela disse 'ah legal, põe no perfil do seu pai pra eu ver ele!' sem nenhuma maldade, aí o cara pergunta 'ei, porque você quer ver o perfil do pai dele?' e ela respondeu 'do mesmo jeito que eu iria querer ver o do seu se eu tivesse acabado de conhecer você, qual o problema?', eu só concordei com ela, mas eu queria ter feito mais, eu queria ter dado um sermão, porque a sociedade indiana ainda tá naquela fase muito hipócrita, eles têm uma coisa de se meter na vida das pessoas, de opinar e de querer separar coisas para homens e coisas para mulheres, isso está mudando, eu sei, aqui em Mumbai, mas ver um cara da minha idade com esse tipo de pensamento? Ele é um dos culpados pelo atraso. Eu contei essa situação pro pessoal no apartamento, e eles concordaram plenamente, então fiquei muito feliz, não é minha visão de brasileiro, é a visão de alguém que já sentiu o gosto da liberdade plena, como todos nós dessa camada social que temos não só no Brasil, mas em muitos outros países.

Bom, no domingo eu pedi pizza por telefone, uma namoradinha indiana do Tiburce veio e cozinhou algo picante (sério?) pra agente e eu resolvi vir e escrever para vocês! No mais, pessoal, tirando a parte da saudade, eu realmente estou numa experiência especial e estou na minha cabeça conseguindo fazer distinções como: opinião própria, opinião da minha cultura e opinião humana. Essa opinião humana é a parte que está me deixando feliz, porque, obviamente eu tenho minhas diferenças com esse povo todo tanto pela minha orientação cultural, como pela minha própria personalidade. Mas eu sinto uma felicidade muito grande de ver opiniões que apontam para o caminho da sociedade que tem liberdade plena e que prega respeito, mas sem exageros, sem repressões. Pessoal, vocês que estão lendo isso aqui também fazem parte dessa camada! Eu sei disso, vocês têm o acesso. Aproveitem e façam sua parte! Até mais!

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