Olá pessoal! Dessa vez eu fui longe. Esta postagem será a respeito da minha viagem ao Japão! Acabei realizando o sonho de muito nerd, inclusive o meu (eu ainda sou muito nerd, acreditem!). Devo dizer já que os quase 7 dias que passei não foram suficientes para mim, pois tenho certeza que há muito o que se ver no Japão, além de ficar comendo todas aquelas besteiras que vendem nas milhões de lojas de conveniência que tem em cada esquina, seja lá onde for. Mas geralmente viagens curtas como essa sempre nos deixam essa sensação. Mesmo assim também adianto que estou muito feliz de ter tido uma oportunidade tão especial de sentir o gostinho do Japão e mudar alguns conceitos, além de descobrir coisas que eu não fazia ideia sobre os japoneses.
Comecemos a viagem duas semanas antes, numa quarta-feira, com a minha batalha para tirar o visto. Eu moro em Powai e a embaixada japonesa em Mumbai fica em Nariman Point, lá embaixo, depois de Dadar (aquela estação central de Mumbai onde você troca da linha central para a linha oeste ou vice-versa). Eu sei que é longe! Acordei cedo para dar tempo de ir ao trabalho e chegando na embaixada descubro que não tenho os tickets de ida e volta para o Japão impressos nem a foto do tamanho certo, aquela velha foto 3x4 brasileira não servia. Vocês não fazem ideia de quantas vezes corri de lá pra cá, porque primeiro, a distância dos lugares, incluindo da estação mais próxima até a embaixada é aquele tipo de distância que é curta demais que o rickshaw ou táxi não vão querer te levar, mas pra andar é um bocadinho, ou seja, ande a pé, e segundo que eu não estava conseguindo achar um lugar pra tirar aquela foto 2 por 2 polegadas, até que num subsolo de um prédio lá eu acabei encontrando, faltando menos de uma hora para a embaixada fechar (ela abre para processo do visto de 9 e meia da manhã até uma da tarde só). Então imaginem que Leonardo correu viu.
Chegando na embaixada com tudo em mãos eu ainda tive que escrever na mão uma cartinha dizendo porque eu queria o visto. Então comecei com aquele blah blah blah em inglês, oi eu sou Leonardo Panta Leão, intercambista do ACE program blah blah blah da TATA Consultancy Services, kindly provide me a short term japanese visa with purpose of visiting Osaka, Kyoto and Tokyo... enfim, uns 2 parágrafos. Pra ainda a mulher dizer que faltavam os tickets de volta do Japão. Pois é, na agonia do tempo curto que tinha eu nem verifiquei o que eu tinha imprimido. Então eu comecei a gaguejar pra mulher, sei lá, eu já tava era ficando tonto com tanta coisa atrapalhando e dando errado consecutivamente, até que a atendente teve a feliz ideia de que eu enviasse ainda naquele dia por fax a passagem de volta do Japão. Agradeci bastante a ela e fui caminhando um pouco mais calmo, sabendo que a coisa estava enfim caminhando para dar certo. Eu tava tocindo muito e cansado, praticamente doente, então pensei, “Por que não fazer o que deve ser feito com calma? Já tô na merda mesmo, se eu correr agora chego no escritório umas 3 da tarde...”, mandei mensagem pra um amigo pedindo pra avisar que eu tava doente e gastei um dos sick leaves (aqui na Índia você tem direito a 15 dias de doente, mas você pode usá-los até se o dedão do pé estiver doendo, eles ficam usando isso um aqui outro ali, tem uma menina no meu escritório que é viciada nisso).
Eu entrei num McDonalds que tinha perto e quando sento começa a tocar uma musiquinha japonesa “Ai ai ai, where’s my Samurai?” (uma que tem no Dance Dance Revolution, Little Butterfly, algo assim). Eu olhei pra caixinha de som e disse “Vá se fuder, doido!”. Parecia que aquilo tava tocando só de sacanagem. Bom, voltei pra Powai e lá achei uma lan house pra imprimir e mandar o fax. Quando voltei pra casa dormi o resto da tarde e um pedaço da noite, é que eu não entrei em detalhes e já gastei uma folha, imaginem o quanto eu corri e cansei! Esse dia foi uma novela pra tirar esse visto.
Também foi uma novela achar onde comprar o J-Rail pass na sexta-feira já com o visto em mãos. Os locais onde o google maps indicava ou não existiam ou não vendiam esse ticket que permite viajar por uma linha japonesa que vai de uma cidade a outra e que pode ser usado em alguns trechos locais também. Caríssimo, mas vale mais a pena que comprar as passagens lá no Japão, até porque nem se vende lá, é somente para turistas ou residentes fora do Japão. Pelo menos dessa vez deu tempo de chegar no escritório.
Aliviado e com tudo pronto, pensei que ia poder planejar calmamente e consultar as coisas que iria ver no Japão. Tudo bem que foi muito desleixo da minha parte deixar para a última semana antes da viagem, ainda mais para o Japão que era um sonho antigo meu. Só que na terça a noite dessa semana antes da viagem eu começo a tossir descontroladamente, nariz escorrendo e quando tiro a camisa no banheiro, tô todo empolado! Peguei uma alergia braba! Como assim? Faltando tão pouco pra ir ao Japão!
No outro dia fui no hospital cedinho. Quando chego o atendente queria me mandar pro dermatologista, eu já dei logo uma bronca, porque como assim me mandar pra um dermatologista se eu nem sabia o que eu tinha, e ainda mais, nem eu sou médico, muito menos ele, o atendente, não que eu menospreze o atendente, mas por favor, não é assim que as coisas funcionam! Tem umas coisas dos indianos que eu não sei não viu! A parte boa é que os remédios foram baratinhos! Gastei 280 rúpias (menos de R$10), eu acho que só o Allegra custaria uns R$30 no Brasil. Nisso Leonardo voltou a gostar da Índia rapidão!
Eu fiquei meio triste por ter ficado doente e estava com muito medo de ter que cancelar a viagem, mas eu já tava tão próximo, e desistir não é muito minha praia. Então me dediquei a melhorar, passei 3 dias seguidos em casa, só comia e dormia e tomei todo o cuidado do mundo pra tomar os remédios no horário certinho, porque lá em Aracaju quando minha mãe inventa de deixar eu tomar os remédios sozinho eu acabo esquecendo ou pulando a dose de algum. Mas dessa vez não, sem Mamis por perto a responsabilidade foi chamada. Claro que eu senti uma falta absurda dela nessa hora pra fazer uns cafunés no carente que eu sou quando fico doente. Quem já me viu doente conhece a peça.
Na sexta, com aquele cuidado todo eu consegui resultado, já estava bom para ir trabalhar, claro que eu não estava o senhor disposição, mas já era outra história. Por outro lado eu não tinha verificado uma linha sobre a viagem do Japão, me dediquei só a melhorar. Tudo bem que é uma desculpa esfarrapada, mas imaginem você não melhorar e se frustrar com aqueles planos todos. Resolvi ligar o modo “deixa levar”, que aliás eu ligo esse modo quase que o tempo todo.
Enfim a viagem. Vamos começar com Chennai. Como o meu voo era domingo e eu cheguei lá sábado, eu poderia curtir um dia em Chennai. Quando cheguei lá já fui falando com os africanos do apartamento do Anderson, o David e o Frank e fiz o David morrer de rir do jeito que eu perguntei “where’s the crazy guy??” (onde está o cara doido??) apontando pro quarto do norte-americano Douglas.
Durante a noite eu fui naquele mesmo hotel que eu tinha ido no primeiro dia de Chennai naquela semana do natal e ano novo. Encontrei muita gente da gangue de Chennai. Eu gosto muito deles, têm um astral muito bom, e segundo eles eu já me tornei “o visitante” de Chennai. Me segurei com todas as forças pra não cair na farra com eles. Quase não resisto à tentação, mas umas 11 da noite eu já estava dormindo na casa do Anderson. Tá vendo aí? Eu sou responsável rapá!
No domingo fui na casa de Dani para fazer a torta de limão, que já é a paixão das meninas da casa dela, e testar cozinhar uma Muqueca que estávamos planejando para o japonês que nos hospedaria em Tóquio, no Japão. Eu sei que já estou craque em me infiltrar no prédio de Dani. Vi um caminhão pipa querendo entrar, e o que fiz? Vi o guardinha vindo e fiz sinal de “pode deixar!”. Abri o portão pro caminhão e fui na cara de pau para o apartamento. Lá fiz a torta de limão e ajudei um pouco com a muqueca e com o arroz. Dani ainda tinha um pacote lacrado de farofa de carne seca do Brasil, um acompanhamento muito bom para a muqueca! Almoçamos com as romenas Angela, Andreea e o romeno novo de Chennai, o Sorin. Só dá Romênia na casa de Dani! Isso porque ainda faltou a Simona que tinha saído.
Depois de um almoço muito bom voltei pra casa de Anderson pra tomar um banho e partirmos pro aeroporto. Nesse de Chennai já fui mais que o Santa Maria lá de Aracaju! Enfim, partimos para a Malásia onde faríamos a troca de avião para o Japão. Eu sei que Indiano é barulhento, se você quisesse dormir era impossível. Tinha uma tia que não fechava a matraca com aquela língua alienígena que é Tamil (essa língua falada só não é mais estranha que sua forma escrita, acreditem!). Nós nordestinos temos uma palavra que descreve perfeitamente o comportamento daquele povo indiano no avião internacional... Tabaréu. Perfeito, diz tudo.
Lá na Malásia reencontrei os ringgits (a moeda local) e gastei uma moeda de 10 centavos que já morava na minha carteira há meses para pagar meu McDonalds de CARNE BOVINA. Comi rezando, huuuummmmm... Depois de horas morgando naquele aeroporto, finalmente quando o sol nasceu pegamos o avião para o Japão.
Outra história, da mesma forma que 90% do avião partindo de Chennai era indiano, 90% desse avião era japonês. Um silêncio total, muita calma pra entrar e sair do avião, porque eu não sei que diabos indiano pensa que quem chega por último é a mulher do padre, quando o avião pousa, o sinal de apertar o sinto nem apagou ainda, já tem gente em pé tirando a bagagem, se amontoando, não dando licença pra você. Eu já esculhambo com os indianos não é? Mas tadinhos, eles não fazem por maldade, é que a disciplina básica e certas coisas eles não têm, mas eu ainda gosto muito deles de alguma forma.
Chegando no Japão já me impressionei da janela do avião. Uma paisagem montanhosa, alguns lugares com neve no topo, até o céu tinha um azul diferente. Pousamos no aeroporto de Kansai em Osaka, aquele famoso por ter sido construído inteiramente sobre a água. Quando você sai do avião já tem aquilo que vai te levar em praticamente todos os lugares que você quiser no Japão, um trem.
Todo mundo muito educado, na mesma hora que o trem lotava, os que ficavam paravam e esperavam o próximo. Ainda vou falar um bocado do senso de organização dos japoneses. Bom, no aeroporto validamos e pegamos o nosso cartão do JR pass e sacamos alguns Yenes (nunca pensei que tão cedo eu fosse usar esse dinheiro que eu gastava comprando pokebolas quando tinha 11 anos jogando Pokémon Blue, e parando pra pensar, eram 250 yenes uma pokebola não? R$5,25... até que não eram tão caras, porque um McDonalds completo custa mais que isso, eita Japãozinho caro viu!). Falando nisso, pelo menos os japoneses realmente amam a batatinha do McDonalds, vem quase um pacote de fandangos só de batatinha (tá, tô exagerando, mas vem muito!).
Saindo do aeroporto quentinho, um frio da peste! Frio assim só senti na minha viagem que fiz ao Rio Grande do Sul no inverno brasileiro de 2009. Aquela velha fumacinha que Leonardo fica igual besta soprando só pra ver, sem nunca enjoar de fazer isso. A primeira coisa que fizemos foi pegar um trem de Kansai para Osaka. Já estava anoitecendo.
Chegando lá tivemos certa dificuldade de achar o local onde queríamos chegar. Meu primeiro choque cultural no Japão foi descobrir que japonês não fala inglês, mas assim, não fala inglês mesmo! Nem os números! Talvez porque eles não sintam a necessidade de estudar outra língua por serem tão independentes dos outros países ou talvez por questão cultural mesmo. Eu particularmente acho isso errado, caso seja uma questão cultural mesmo. Eu sei que o inglês é a língua oficial dos dois países (EUA e Inglaterra) mais prepotentes e que se acham a última bolacha do pacote (desculpa, mas é preconceito e conceito misturado aqui, pelo que já vi e ouvi), mas fazer o quê? O inglês pra mim é o térreo da torre de Babel, basta você subir alguns degraus, a lógica não é difícil de aprender, a língua usa o alfabeto mais simples que já vi, nem acento tem, entre outras coisas. Eu não atribuo 100% à “dominação” norte americana como consequência do inglês ser a língua número um no intercâmbio entre as nações. Graças a essa língua a gente pode cair no mundo não é? Pô japoneses, vamos aprender inglês aí! Enquanto isso mais da metade dos indianos falam inglês ou ao menos entendem o básico, irônico, não? Tá, foram colonizados pela tal Inglaterra, mas foi um presentinho bom que eles deixaram viu! Indiano com seu inglês de sotaque estranho agora tem um em cada canto do planeta! Ponto para os indianos!
A estadia do primeiro dia em Osaka foi gratuita, graças a Dani (ainda tenho muito o que agradecer a ela pelo que ela conseguiu para nós nessa viagem). Ela contatou um casal que tem um bar em Osaka que costuma hospedar aventureiros estrangeiros em troca de 3h de trabalho no bar por cada dia de estadia. A mulher não fala muito bem inglês, mas o marido tem um bom nível. Como era segunda-feira obviamente o movimento no bar era mínimo, havia apenas um cliente! Lavei uns copos, cortei uns papéis e depois fui bater papo, eu, o marido da dona do bar e o cliente. Foi muito engraçado. O marido foi tipo um intérprete, mas às vezes, com certas palavras que aprendi nos animes (desenhos japoneses) eu conseguia entender o cara perfeitamente ou ter uma ideia do que ele estava falando (tá, deixa eu ser realista, muitas vezes eu entendia era porra nenhuma, eu não falo japonês!).
Eu falei coisas do Brasil e dos animes que assisti. Como era carnaval lembro de eles terem citado que tinha um tipo de carnaval brasileiro na cidade de Kobe. Também lembro de um momento engraçado em que eu falei que sabia dizer “dakishimete!” que significa “me dê um abraço!”, aí esse cliente que já era uma figura muito engraçada falou “blah blah blah otoko!”, eu sei que “otoko” significa homem e entendi perfeitamente que ele falou “eu não gosto de homem!”. Eu me acabei de rir e disse que não foi o que eu quis dizer. Mas foi muito engraçado a reação dele. Eu sei que ele tava tirando onda.
Durante esse tempo também chegou um alemão que já tinha trabalhado no bar na mesma condição, foi visitar outras partes do Japão e voltou para passar mais uns dias em Osaka. Claro que Leonardo não perdeu a oportunidade de falar um pouco de alemão com ele. Me apresentei, dei boa noite, um bocado de coisinhas que ainda lembro do alemão que estudei ano passado e no começo desse ano. Todo poliglota esse Leonardo não é? (Ah que nada, eu nem falo espanhol velho, que vergonha! Enfim!)
Depois disso, nem deve ter durado as 3 horas, a gente foi para a casa deles. Muito bonitinha e confortável, era o que posso pensar como típica casa japonesa. Tinha 2 andares acima do térreo. Tudo era apertadinho, mas extremamente bem aproveitado. No nosso quarto tinha uma TV do tamanho da parede. Cada coisa tinha seu lugar e instruções bem precisas do que continha ou o que era pra ser feito com cada coisa. No próximo post irei discutir um pouco o que eu acho ser o segredo da organização dos japoneses.
Bom, parando um pouco a aventura Japão e encerrando o primeiro dia em Osaka. Eu devo dizer que tenho me apaixonado por escrever. Tenho tomado gosto pela coisa e espero estar fazendo de uma forma que divirtam vocês e que passe tanto a ideia do que eu senti ou vi, tanto quanto minha percepção pessoal das coisas que tenho vivenciado. Para os leitores preguiçosos de plantão desta vez estou dividindo as aventuras em partes. Assim posso escrever com mais detalhes. Eu gosto de ficar descrevendo da forma como vejo as coisas e às vezes fazer esse tipo de reflexão sobre o que eu vivenciei, tenho certeza que alguém que leia e se interesse terá tempo suficiente para pensar em argumentos que me apoiem ou que me passem uma visão diferente, que será sempre bem-vinda. Não importa sua idade, sexo ou se você jamais viajou mais que 200 quilômetros de casa. O que importará serão suas ideias!
Um grande abraço. E não se preocupem, vou continuar escrevendo o mais constante que puder até terminar a experiência Japão. Essa precisar ser rica em detalhes!
FIM DA PARTE I.