Ao acordarmos descobrimos que Osaka não é tão inocente assim e que provavelmente as garotas dos anúncios da revistinha do bar onde comi meu primeiro yakisoba japonês não moravam muito longe dali. Passeando pelas ruas bem bonitinhas e estreitas passamos por casas onde haviam mulheres sorridentes com a porta aberta, decotão a amostra e tabelas ao lado com preços e quantidades de minutos. Ali com certeza não era tempo para tirar foto ou conversar. Elas ficavam sentadas em almofadas como se elas fizessem parte de uma vitrine, tinha toda uma decoração em volta, roupa toda tradicional, porém com um senhor decote. Não que o bar onde trabalhamos tenha a ver com isso, e as japonesas generosas se situavam numa rua bem particular e eu lembro do marido da dona do bar citando sobre isso. Mas ele citou como se fosse nada, eu tenho a impressão que prostituição é legalizada no Japão, esqueci de perguntar, porque tanto a revista como as garotas não pareciam nem um pouco coisa ilegal ou que você precisasse fuçar muito para achar.
Passeamos mais pelas lojinhas de Osaka. O aspecto dessa cidade é algo como uma cidade do interior, claro que na versão japonesa. Compramos algumas lembrancinhas, almoçamos num restaurante bem legal. Mais uma vez você podia notar a forma de informação visual que os japoneses implementam. Na entrada você tem todos os pratos de mentirinha, feitos de plástico, mas tão bem feitos que alguns parecem de verdade. Lá dentro você encontra um cardápio com as imagens dos mesmos pratos. Ou seja, não importa se você não sabe japonês ou se já entrou no restaurante sem decidir o que queria, a informação visual está sempre a sua disposição. E os japoneses são muito bons nisso. Tudo lá tem uma figurinha, uma musiquinha, um áudio explicativo (muitas vezes em inglês) ou qualquer outra coisa que faça com que você, mesmo que seja leso (sempre vai ter mais um lugar com a mesma informação, de formas diferentes, para pessoas distraídas como eu), deficiente visual ou auditivo ou estrangeiro (uma pessoa que não fale japonês), tenha uma ideia do que está fazendo.
De repente enquanto caminhávamos me deparei com o tipo de santuário que eu nem estava lembrado de procurar durante essa viagem, uma loja de instrumentos musicais. Na mesma hora fiquei louco com todos aqueles amplificadores e guitarras Fender. Tinha guitarra, violão e baixo pra todos os gostos e de todas as cores. Comprei algumas palhetas e uma coisa que eu nem pensei duas vezes, fiquei louco, eu tinha que comprar. Um mini amplificador (quem já assistiu o filme Escola do Rock sabe o que é, tem uma cena em que o cara bota um desses no cinto e sai tocando a guitarra dele) que já vem com distorção, é movido a bateria ou pode ter uma fonte plugada, é de um tamanho que cabe na mochila ou mesmo numa bolsa, além de outras características que eu fui descobrindo e vibrando enquanto lia o manual. Sem esquecer do mais importante, aquele bixinho pequenininho faz muito barulho pro seu tamanho, se preparem! Não vejo a hora de plugar minha guitarra naquilo.
Testando isso eu peguei uma guitarra e comecei a tocar Wasted Years do Iron Maiden (minha música tema). Quando fui pagar o balconista todo sorridente com aquele jeito típico e sotaque bem forte japonês disse “Iron Maiden né?”. Eu ri viu, como ri. Até hoje quando lembro do jeito que aquele japonês falou eu riu.
Continuamos a andar pelas ruas da pacata Osaka e fomos pegar o trem para Kyoto. O engraçado é que chegando lá as cadeiras do trem estavam rodando! Sim, elas giram pro lado da viagem, além disso dentro você tem um pedal que permite girar a cadeira manualmente e formar grupos de seis pessoas, bem legal, não?
Chegamos em Kyoto à noite e no caminho para acharmos o Khaosan (um tipo de albergue japonês) paramos num tipo de loja que parece ter uma em cada esquina de lá. Uma loja onde vendem jornais, revistas, mangás, animes, camisas e acessórios relacionados a isso, hentai (desenho pornô japonês), pornografia e brinquedinhos sexuais. Sim, no Japão esses brinquedinhos, cremes, camisinhas especiais, etc., que você precisa ir numa sex shop vendem do lado de maquiagem, revistas ou roupas, não importa, como se fossem só mais um artigo (o que na minha cabeça realmente são, acho muito idiota esses enxames e blah blah blah, todo mundo quer e todo mundo faz sexo, um grande ponto para os japoneses, não parecem ser tão hipócritas!). Sem falar que os mangás e hentais têm versão homossexual (tanto lésbico como gay) e vende lá, do lado dos mangás de outros gêneros (ação, comédia, suspense, etc.). A impressão que tive é que os japoneses tratam o assunto sexualidade e desejo sexual (apesar de serem uma “raça” nerd e tímida) com bastante tranquilidade e normalidade. Aproveitando para dizer também que nenhum japonês torceu o pescoço ou esbugalhou os olhos para Dani ou qualquer outra estrangeira que vimos nas ruas (diferente de muitos indianos que me fazem até sentir vergonha alheia). Acho que japonês é tudo come quieto!
Assim, não foi só uma loja que visitei, e era o seguinte, uns 2 andares tinham muita coisa, mas eram outros 2 andares, um só com hentai e outro só com pornografia, um andar inteirinho! Chegando num andar desse você se depara logo com a capa dos filmes com aquela japonesa peladona. Brinquedinhos, cremes, camisinhas, cuecas, calcinhas e fantasias para todos os gostos. E quem olhando? Um vovozão, uma Tiazona com a filha ou sobrinha (claro que provavelmente de maior ou quase), os caras todos comportados, olhando com ar de normalidade (como deve ser!). Entrei no clima e olhei tudo de boas também porque ninguém é de ferro, não é?
O albergue japonês, o Khaosan, era muito organizado (eu nem vou mais usar essa palavra, esse adjetivo já vem embutido na palavra “japonês”). Como sempre tudo com muita informação visual e precisa. Por exemplo, você espera o elevador e tem um cartaz do lado dizendo o que cada andar tem. Dentro do elevador, do lado de cada botão tem um balãozinho explicando mais uma vez o que aquele andar tem. Tudo com aquele ar bonitinho, infantil e amigável. O Japão é um lugar muito confortável para gente lesada igual a mim!
Aquele albergue tava era melhor que muito hotel, depois então que eu entrei no banheiro descobri que eu tinha ido parar no albergue da NASA! O vaso sanitário (diferente do vaso gaúcho que é frio, ou com muita sorte há um secador do lado pra dar um jeito no choque térmico da sua perna e o vaso) já vinha com aquecedor embutido no assento onde sua perna e bunda tocam. Ao contrário do que acontece no RS onde você quer é pular do vaso e desistir de fazer o que você precisa, nesse você luta pra querer se levantar. Depois que no lado do vaso ainda havia pelo menos uns 10 botões. E era aguinha pra limpar o bumbum, opção de intensidade do jato, controle da direção do jato, aguinha na frente para as mulheres, entre outras coisas. Tudo impecavelmente limpo e cheiroso, daria para morar ali.
Nessa primeira noite nos entupimos de bebidas e esses empacotados bonitinhos do Japão que crianças de 10 anos ou Leonardo ficam doidos pra experimentar. Eu experimentei bebidas pelo estilo da lata. A lata que tivesse me chamado mais atenção eu tava bebendo. O fato engraçado da noite foi a gueixa (não sei se ela era uma de verdade, mas a mulher estava vestida como uma). Eu e Dani fingimos que estávamos tirando uma foto com o espaço da porta da loja entre a gente. Enquanto isso Anderson tirou foto de cada passo que a mulher deu! Outro fato engraçado foi eu entrar num restaurante pra fazer xixi. Sentei no balcão, fingi que ia pedir algo, levantei pra ir no banheiro e saí fingindo falar ao celular. Engabelar eu aprendi na Índia! O garçom só fez comer poeira.
Batemos perna em Kyoto no outro dia. Lembro de querer muito visitar o Museu Internacional de Anime e Mangá de Kyoto. Mas ele estava fechado para manutenção até um dia depois de já termos partido para Tóquio. Fiquei triste, tava louco pra ir ver, vai ficar pra próxima! Lembro de ter começado a chover e nos abrigamos num Starbucks Coffee. Nada mais muito especial nesse dia aconteceu. A chuva nos atrapalhou e só no outro dia descobrimos que podíamos usar os guarda-chuvas do Khaosan de graça!
No outro dia visitamos um casarão japonês bem tradicional, era um prédio do tempo do shogunato (quem assistiu Samurai X ou se lembra de Japão nas aulas de história sabe o que é). Tiramos várias fotos da área externa, mas eu queria era poder tirar foto da área interna. Lá tinham várias salas interessantes, tudo do jeitinho da época dos samurais, algumas até com estátuas representando o que se passava naquela sala em particular. Um fato engraçado foi passar por crianças japonesas (um montão), todas começaram a sorrir pra mim, aí eu acenei dizendo “Konichiwaaaaa!” (“Boa tarde!!”), e elas responderam acenando e dizendo “Konichiwaaaaa!!”.
Antes de irmos para Tóquio, pausa para falar do atendimento Japonês. Toda loja que você for, não importa se é a Nike Store, o restaurante de Sushi ou a banquinha de frutas, todos os atendentes que te perceberem (se tiver 10, os 10 vão fazer) irão falar “Irashaimaseeeee” (como se fosse cantando, e significa algo como “bem-vindo”). E falam outras palavras de cumprimento, tudo num padrão rigoroso, todos os atendentes de todo tipo de loja dizem as mesmas palavras e agem da mesma forma. E não importa se você pagou uma bala com uma nota de 10mil yenes (R$212). Eles não questionam se você tem moedas(falo já delas) ou notas menores e te dão o troco em 2,7289 segundos e dizem “Arigatou gozaimashitaaaaaa” e outras palavras de cumprimento, te dão as moedas na sua mão e a nota fiscal, tudo com todo o cuidado do mundo. Agora vá no Brasil pagar um sorvete com uma nota de R$100? Pior, pague um rickshaw na Índia com uma nota de 500 rúpias? (nem tente com a de mil, melhor dizer que tá sem dinheiro, sério). Você conhecerá o que é simpatia e bom atendimento!
Agora falemos dos yenes. O Yene é uma moeda (LITERALMENTE). Tudo bem que tem a nota de mil, de 5 mil e de 10 mil, mas o que você vai gastar a maior parte do tempo são moedas de 1, 5, 10, 50, 100 e 500 principalmente as de 100 e 10. Eu já estava arrombando o zíper da minha carteira que já estava pesando 10 quilos. Então resolvi separar um bolso do casaco só pra colocar as moedas, minha vida mudou depois disso. É muito estranho comer e beber pagando com moedas. Você achando que tá pagando pouquinho e na verdade tá é pagando R$5, R$10, R$20 nessa brincadeira, só usando moedinha. Uma ,silada bino!
No próximo post iremos para Tóquio. Espero que tenham gostado de mais esse texto. Um abraço!
FIM DA PARTE II.
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