terça-feira, 6 de março de 2012

Viagem ao Japão Parte III: “Muqueca né?”


Só mais uma pausa para falar de mais um fato interessante. Talvez nem tanto, enfim. Enquanto aqui na Índia com aquele calor de rachar eles te fazem beber um copo d’água “natural” (pra mim não tem essa de natural, é quente), lá no Japão, naquele frio de lascar, te dão um copo d’água geladíssimo e com bastante gelo ainda mais! Como deve ser! Mais um ponto para os japoneses, afinal não importa que temperatura esteja fazendo, cerveja e água devem ser gelados e pronto! (tô zoando viu, sem problemas se você costuma pedir água de coco natural ou suco de laranja sem gelo).

Vamos para Tóquio, enfim! A jornada começa pegando o trem bala na estação de Kyoto. A sensação é engraçada. Você está num trem, mas não sente a roda no trilho. A sensação é de estar no avião próximo à velocidade de decolar, mas o avião nunca decola. E o balancinho também é diferente. Pra você brasileiro que não viaja de trem infelizmente (infelizmente mesmo! É uma vergonha não termos trens entre as capitais e principais cidades! Na Índia você vai para todos os cantos de trem. E no Japão você vai até ao banheiro de trem, enfim) não vai saber a diferença entre o trem bala e o trem normal. Mas se você já viajou de avião, o balancinho que o trem bala dá tem a mesma sensação do balanço do avião.

A paisagem japonesa é muito diferente da do Brasil quando se fala em viajar por terra. Enquanto viajando pelo Brasil vemos aquelas imensidões de fazendas ou terras sem nada ou só vegetação, no Japão só não tem coisa nos morros e encostas das montanhas. Porque o que se vê é sempre casas, prédios e fazendinhas (como se fossem uns quarteirões todos bem bonitinhos, muitos com equipamentos de estufa e sempre perto de casas, o “interior” japonês ainda assim é um pouco urbano). Mas nada, nem mesmo por um quilômetro seguido, se compara àquelas imensidões desabitadas que temos nas beiras das estradas brasileiras, mas nada perto daquilo mesmo! E sem esquecer que no plano de fundo sempre há uma cadeia montanhosa. Também de dentro do trem bala para Tóquio se destaca uma montanha totalmente branca. Ela se destaca mesmo, porque o sol bate na neve branca e faz com que aquele monte fique destacado, como que de propósito naquela paisagem marrom e verde. Sim, é o monte Fuji. Pretendo visitá-lo de verdade um dia. Aquilo parece ser algo que precisa ser visto com calma e apreciado de perto.

Também pude ver um pouco de neve acumulada na beira da ferrovia. Mas ainda assim, indo ao Japão, não matei meu desejo por ver neve caindo do céu (por tão pouco! Soube que nevou em Tóquio cerca de uns 3 ou 4 dias depois que parti do Japão). Uma dica importante aos turistas é que há dois tipos de trem bala que você não pode pegar com seu J-Rail Pass, o “NOZOMI” e o “MIZUHO”. Eles são iguais aos outros, mas a diferença é que param em poucas estações. Esse que pegamos, por exemplo, só pára em Yokohama antes de seguir para Tóquio. Tivemas uma senhora sorte porque a guardinha, muito educada, tentou se comunicar comigo em japonês, e iria nos cobrar mais de 12mil yenes (R$255) pela passagem. Eu nem tava com esse dinheiro na hora. Então ela, como percebeu que não tínhamos feito por maldade, apenas pediu que trocássemos de trem em Yokohama (um dos tipos é o “HIKARI”, você vai pingando em um bocado de estações, mas é o que o seu J-Rail Pass lhe dá direito a quantas vezes você quiser andar nele, lembrando que é o mesmo trem bala, só muda isso). Ela me deu até o horário exato do trem bala que eu ia poder pegar! Tudo muito explicadinho (mas claro, eu só entendi o que deu), anotado num papel. No fim eu falei sorrindo “Wakarimashita! Domo arigatou!!” (“Entendi! Muito obrigado!!”). Ela fez aquele mesmo sorriso surpreso que adoro arrancar dos indianos quando falo Hindi. Nem me senti!

Passado o susto, chegamos em Tóquio no fim da tarde. Tínhamos que chegar numa estação chamada Kagurazaka. Mas pessoal, diferente dos trens de Mumbai onde eu já decorei o nome de 80% das estações (na linha central eu já sei até a ordem!). A malha ferroviária de Tóquio é sem noção! Um emaranhado de trens e metrôs. Não importa se sua avó mora no subúrbio ou na caixa-prego, você vai chegar lá de trem. E ficamos ali sem conseguir entender aquele sistema complexo e o quanto a gente deveria pagar pelo trecho (o J-Rail pass só cobre uma linha que cruza algumas das principais estações). Um trecho custa no mínimo 120 Yenes (R$2,50). É caro se comparado à Índia, onde você paga Rs. 8/- (R$0,28) e vai de uma ponta a outra de Mumbai, mas a qualidade é incomparável (e a lotação também). Massa mesmo é em Aracaju-SE, onde se paga o valor do trem japonês para andar de ônibus (e não importando o tamanho do trecho), pelo que tenho visto na internet.

Eu sei que eu tenho feito pausas demais pra finalmente falar o que fiz em Tóquio. Mas vale mais essa. Vamos falar agora do transporte no Japão. A quantidade de carros nas ruas é relativamente baixa (ou talvez seja só impressão, por conta de todas aquelas avenidas largas, até mesmo na pacata Osaka havia algumas). Os carros não buzinam de jeito algum. Pra falar a verdade se você fechar os olhos em qualquer lugar do Japão, até mesmo em Tóquio, você vai achar que tem 10 pessoas e 2 carros na rua. Você só se toca quando abre os olhos. Japonês sabe falar baixinho e ficar quieto, uma qualidade muito boa que eu preciso absorver deles! O meio de transporte principal depois do trem é a bicicleta. Você pode largar sua bicicleta em qualquer lugar, sem cadeado algum. Ninguém vai mexer nela. Isso significa que você pode estacionar sua bicicleta para fazer compras ou até mesmo largar ela de frente pra estação de trem ou metrô e buscar ela na volta. Perfeito! Eu não usaria carro se vivesse num lugar assim! As calçadas são largas e pedestres e ciclistas têm juízo. (Já em Mumbai quase ninguém anda de bicicleta, vale mais a pena ir andando, é tanta gente que o espaço de uma bicicleta chega a ser um desaforo! Em Aracaju a gente não faz isso porque poderiam até espalhar vários locais onde você poderia trancar sua bicicleta, mas o povo lá é metido a besta, quem é que quer chegar de bicicleta? O povo lá quer chegar de carro até mesmo se o restaurante for a cem metros de casa).

Claro que devem ter outras coisas que eu tenho pra falar dos japoneses, indianos e aracajuanos, mas vamos deixar isso para um bom papo numa mesa de bar onde eu posso comparar alguns pontos de vista. Sem mais pausas vamos para Tóquio! Com a ajuda de uma mulher bem estranha a gente conseguiu chegar na estação certa. No fim entendemos o esquema do trem de Tóquio! (Ponto para mim! Já sei me virar de trem em Tóquio, quem for pra lá me chame!). A acomodação foi mais uma vez arrumada por Dani (mais um muitíssimo obrigado para ela, pensem numa pessoa que sabe a arte de viajar!), foi um tipo de couch surfing (surf de sofá). Nisso você se hospeda por alguns dias na casa de alguém de graça em troca de intercâmbio cultural (seja cozinhando algo, ensinando sua língua ou ensinando inglês). Existem sites na internet onde você pode procurar por isso, mas claro que sempre tenha muito cuidado e pesquise direitinho pra onde você tá indo (a sensação que tive agora foi a dos caras que fazem coisas legais na TV, sabem que são legais, estão loucos para dizer “façam porque é muito foda!”, mas têm que dizer “não façam isso em casa!”). Enfim, eu confio na Daniela e no fim das contas foi muito legal sim!

O “host” (o hospedador) se chama Hiroshi. Ele já é bem acostumado a fazer esse tipo de coisa. Também já viveu nos EUA por um tempo. A casa era muito legal e japonesa (vocês já sabem o adjetivo que já vem embutido nessa palavra, não é?). O nosso trato foi trazermos comida indiana e cozinharmos alguma comida brasileira. Trouxemos massa para fazer chappati (um tipo de pão), massalas (pimentas indianas em pó), pimentas (o fruto), curries indianos (acho que a gente pode dizer que é “coloral”) entre outras coisas. A comida brasileira que fizemos foi muqueca, como já havia dito. O engraçado de procurar verduras fora do Brasil são os tamanhos e aparências dos vegetais e frutas nos outros países. O pimentão japonês era pequenininho, parecia de brinquedo (o pimentão indiano é igualzinho ao brasileiro), a cebola, diferente da cebola indiana que é pequenininha, devia ser transgênica ou proveniente de Itu, eita cebola gigante! O alho então, cada dente tem o conteúdo de uns quatro ou cinco dentes. O limão não é redondinho, é aquele que tem um formato bem diferente que a gente vê nas figurinhas que representam um limão, mas que não tem nada a ver com o limão que a gente está acostumado a ver. O tomate na mesma situação da cebola, é o dobro do tamanho do tomate brasileiro e quatro vezes maior que o tomatinho indiano. O mais engraçado é que a missão de comprar tudo isso foi dada a mim, Dani e Anderson estavam cansados e com frio, enquanto eu estava no espírito “puta-que-pariu-eu-tô-em-Tóquio-velho!!!!”.

No fim das contas eu achei tudo. Ou quase tudo, teve umas folhinhas que deveriam ser qualquer coisa menos o coentro que Dani pediu. Mesmo assim ela ainda foi na minha onda de colocar aquilo dentro da muqueca. Pelo menos não estragou a muqueca, não foi o mesmo sucesso que ficou a de Chennai, mas ela ficou boa, relaxem aí. O arroz era umas bolinhas estranhas, eu tentei, tentei cozinhar aquilo, mas ficou uma papa. Pelo menos embolado na farinha de carne seca e na muqueca, ninguém notou que o arroz estava mesmo pura papa!

Bom, aos trancos e barrancos a muqueca ficou boa e todos nós e os japoneses da casa do Hiroshi gostaram e comemos tudo. Durante isso eu conversei muito empolgado com os japoneses. Falei o que eu sabia de japonês, dos animes que assisti, dos personagens, o que passou no Brasil quando eu era criança. Ninguém lá sabia quem era Jaspion! O problema é que como todos nós tínhamos de 20 a 25 anos, e Jaspion foi da década de 70 (no Japão), nenhum japonês da nossa geração assistiu, mas como chegou no início dos anos 90 no Brasil, a gente assistiu como se fosse do nosso tempo!

Lembro do japonês me mostrar o número um do mangá de Dragon Ball, e ele tinha a coleção toda! O Hiroshi me prometeu que quando vir ao Brasil vai me trazer um número daquele, eu disse pra ele que em troca vai levar uma camisa da nossa seleção pra casa. Bom, depois de conversar um monte com os japoneses (Dani e Anderson ficaram mais observando toda a abestalhação do menino que finalmente se encontrou com seus “conterrâneos”), fomos dormir.

Por negligência, ou talvez, junto com isso o cansaço da mudança repentina de clima e fuso horário, só acordamos lá pelas onze da manhã. Combinei de encontrar o Akira (aquele japonês que conheci em Chennai) na estação de Kichijouji, próximo de onde ele mora. Quando o encontramos comemos um McDonald’s e ele nos falou que vai voltar à Índia em breve para ir num casamento indiano de um amigo dele (espero que isso aconteça algumas vezes comigo também no futuro!). De lá fomos num Karaoke. Teria sido impossível se não fosse um japonês com a gente, pois as atendentes não falam inglês, o equipamento do Karaoke é totalmente em japonês, enfim, se você quiser cantar num Karaoke japonês terá que fazer um amigo japonês também!

As músicas que cantei foram Kurenai do X-Japan, Junjou na Kanjou e Tactics do anime Samurai X. Para conseguir cantar eu usei o celular do Akira para ver as letras das músicas no nosso alfabeto, já que a letra das músicas do Karaoke apareciam todas no alfabeto japonês. Eu sei que eu me diverti absurdamente, foi como realizar um velho desejo que eu tinha de cantar num Karaoke japonês. Saí todo empolgado, e o Akira também, diz ele que minha pronúncia em japonês é perfeita, parece até que eu sei a língua. O que de fato na verdade só cantei bem porque eu já ouvi essas músicas milhões de vezes. Queria ter canto mais, porém o Akira tinha uma entrevista de emprego e teve que ir. Uma pena!

Após isso, fomos à cidade eletrônica de Akihabara. O aspecto de lá é bem futurista. Com todos aqueles prédios envidraçados, telões e propagandas. Esse lugar é famoso por vender eletrônicos e artigos relacionados aos animes e os mangás. Eu vi muito nerd comprando esse tipo de coisa. Sem contar que Akihabara era muito barulhenta e o engraçado é que toda vez que o barulho diminuia a gente se dava conta que estava saindo de lá. Também aproveitamos para comprar uns presentes.

Depois de Akihabara resolvemos ir à Tóquio Tower. Um monumento estilo a torre Eiffel. De lá é possível ver como Tóquio é densa. Era impressionante a quantidade de prédios por cada quarteirão, tudo muito juntinho. Aonde a vista alcança você consegue ver aquelas luzes vermelhas piscantes do topo dos prédios. Não se via o fim da cidade e a paisagem iluminada era hipinotisante. Um lugar realmente singular a ser visitado.

Quando voltamos, antes de dormir, joguei um pouco de Winning Eleven (um jogo de futebol famoso do Playstation) no PS3 com os japoneses. Fizemos Brasil contra Barcelona. O problema é que o uniforme da seleção era totalmente verde. Eu fiquei indignado, e o pior de tudo é que o uniforme número dois era verde com branco! Dois uniformes que jamais existiram! Bom, eu perdi as duas partidas, mas botei a culpa na camisa, cada uma! Se eu tivesse jogado com a amarelinha teria ganhado de certeza, hum!

Bom, o restante da aventura eu vou contar na próxima e última postagem sobre a viagem ao Japão, relaxem porque a “viagem” acaba aqui, porque no outro dia até a vinda de volta a Mumbai só deu atrapalhada. Então basicamente vou contar o que deu errado e minhas conclusões sobre mais essa aventura. Um abraço!




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