quarta-feira, 2 de maio de 2012

De olho na reta final


Bom pessoal, eu sei que faz um tempo que não escrevo para o blog. Não por falta de tempo, mas talvez por falta de viagem. Aqui acontece muita coisa, mas me parece tão natural as idas e vindas do sábado a noite onde eu sempre acabo conhecendo alguém de mais algum canto desse planeta. E tenho muitas histórias pra contar que será melhor gesticular e interagir comigo que ler elas no blog. Desde o começo sempre selecionei, histórias pro blog e histórias pra mesa de bar. Quando viajo eu vejo muita coisa que vale a pena registrar e descrever cada detalhe. Mas também vejam pelo meu lado, tem confusões, armadas e aventuras que são pessoais demais pra deixar aqui onde todo mundo lê.

No mais, deixando as desculpas esfarrapadas de lado por não escrever por falta de saco e por muita coisa ter acontecido. Eu tenho ficado um pouco lesado. Esse último mês o dia-a-dia devagar e conformado dos indianos me contagiou. O gás da cozinha acabou já fez um mês e nem me faz falta, parei de cozinhar. Tenho comido mil e um chapattis e dormido demais. Também parei de ir na academia, última vez que fui lá o equipamento de fazer exercício de perna e abdomen quebrou e depois de dois meses se brincar ainda tá lá quebrado. Vocês não fazem ideia de quanto tempo leva pra um indiano concertar algo quebrado. Lembro do banheiro do meu andar ter passado mais de um mês interditado, já faz também quase um mês que o bebedouro do meu andar quebrou e eu vou no andar de baixo pra pegar água gelada.

E olha que eu trabalho na TATA, a empresa que detém uma fatia imensa nos lucros da economia indiana. Sem contar o que vejo na rua. A maquininha de passar o ticket do trem quando fica sem tinta passa até duas semanas tendo eu que usar o carimbo até um funcionário chegar e trocar. E quando um papelzinho emperra que é só o cara abrir e tirar o pedacinho que enganchou, tome duas ou três semanas carimbando o papelzinho porque o cara que mexe na máquina só vai lá sabe-se lá quantas vezes no mês. Se eu for listar as coisas que vejo e que passado quase um ano eu não consigo me acostumar, inclusive no meu ambiente de trabalho, deixa pra lá.

Vamos falar do que é agora poder ver o fim dessa aventura Índia, apesar de que ainda falta um mês e pouco pro meu retorno, ainda falta uma viagem e uma quantia de fins de semana que dá pra escrever um livro de tanta coisa que provavelmente acontecerá. Devo dizer que eu fico feliz, preciso ver minha mãe mais do que nunca e comer todo o tipo de coisa que tenho saudade. Me perguntam se vou sentir falta da Índia. Bom, como na minha cabeça as boas memórias sempre são maiores e mais lembradas que as ruins (sim, ao contrário de muita gente que vive mandando mensagem no facebook com mil e um ensinamentos chineses e não consegue parar de falar mal do Brasil, felizmente minha cabeça nasceu assim, tomara que não mude nunca!) eu vou sentir falta daqui também. Mas não desse ar poluído e barulhento de Mumbai. Não das coisas que levam mil anos para ser concertadas ou do sorriso amarelo quase que me dizendo ‘não sei do que você está falando’ dos meus colegas de trabalho quando falo que é um absurdo estarmos numa companhia bilionária usando esses computadores há muito obsoletos e com esses monitores CRT (aqueles de tubo) que gastam muito mais energia e vista. Sinto falta dos papos cabeça com meus amigos sobre o que nos revoltam e o que poderia ser feito, não que a gente saia por aí e aja, mas discutir já é um bom começo. Os indianos aqui não discutem nada, aceitam tudo.

Eu vou sentir falta do rickshaw barato que me leva aonde eu quero, pois com o google maps do meu celular eu sei onde eu estou sempre. Apesar de que (não chamando o coitado do motorista de animal) é como aprender a andar de cavalo, o rickshaw tem vontade própria e pode simplesmente não querer te levar lá. Vou sentir falta de conhecer e discutir os mais variados assuntos com pessoas do mundo todo, inclusive os indianos mais mente aberta que também contam como pessoas do mundo todo na minha lista. Aliás hoje eu tava comentando com meu colega de trabalho, não só agora tenho amigos no mundo todo quanto nesse mundo Índia. Tem bem uns 5 ou 6 estados que se eu for lá terá um indiano pra me dizer que língua falam e o que fazer por lá. Então tem essa também, há um certo intra intercâmbio chamado Índia. Já ouvi gente dizer que eu fui a mais lugares na Índia que ela própria. Mesmo assim falta muito o que se ver na Índia. Do mesmo jeito que falta muito o que se ver em todo o mundo. Do mesmo jeito que falta muito o que se ver no meu Brasil. Falta muito o que se ver no Nordeste. Falta muito o que se ver em Sergipe, falta ainda algo que não vi na própria Aracaju de onde vim. Que pena eu não ser imortal e poder ver tudo isso. Mas tomara que eu continue tendo a sorte de poder ver muita coisa!

Vou sentir falta de falar português e isso ser um extra. Vou sentir falta de falar português e relaxar com isso. Vou sentir falta de negociar em hindi a cerveja que não pode ser comprada depois da meia noite. Vou sentir falta de barganhar. Vou sentir falta de tomar uma decisão em um segundo sobre o próximo lugar distante que eu quero ir. Vou sentir falta de fingir estar entendendo quando eu num sei de nada e fingir não saber de nada quando na verdade eu entendi tudo (é o truque do intercambista, porque inglês ou hindi, nenhuma delas é sua língua materna), aprendi a ser ator aqui. Vou sentir falta de dizer adeus todo fim de semana pra uma pessoa que vai atravessar oceanos e de dar boas-vindas na mesma festa a pessoas que acabaram de chegar, como se estivéssemos num reality show sem fim. O ciclo dos que chegam e dos que vão está sem fim aqui.

Vou sentir falta de acumular tantas histórias em tão pouco tempo. Principalmente, vou sentir falta de loucamente conhecer novas pessoas o tempo todo. Os rotos não se repetem nas festas e as pessoas nunca são seus vizinhos de bairro. Uma coisa não vou sentir falta porque ela vai continuar comigo aonde eu for. Agora quando vejo um estrangeiro, não vejo mais uma oportunidade de praticar meu inglês que não está bom o suficiente ainda e ficar se achando depois, nossa falei com fulano de tal lugar, agora vejo só mais um amigo em potencial, alguém que vai ter algo interessante pra contar, mas de um jeito que é como se fosse só mais um convidado do churrasco. É engraçado falar com um japonês sobre o que você viu na infância e nem se tocar do fato de ele vem do outro extremo do planeta. É engraçado falar com uma americana dos seriados da TV e da diferença do sotaque britânico, tão natural quanto se eu falasse da novela das oito e rir do sotaque pernambucano. É engraçado se gabar do pentacampeonato brasileiro como se eu tivesse me vangloriando pelo campeonato brasileiro alcançado pelo meu time. É engraçado dançar aquela música árabe que tocava no clone ‘Habibiiiii Habibiiii’ com um egípcio e uma garota da Tunísia e deixá-los se questionando de onde diabos ouvimos aquela música tão famosa no país deles, como se fossem nordestinos questionando um gaúcho que sabe ‘Asa branca’ de cor. Situações do tipo eu vivenciei um bocado e disso eu vou sentir falta, vou sentir falta de vivenciar isso toda semana.

Por outro lado agora eu amo minha Aracaju de paixão. Tão limpa e bonita. Temos muitos problemas, mas temos muita gente reclamando de barriga cheia. Mas também digo que só saindo para dar valor. O jeito que vejo Aracaju e seu lado bom, só quem passar pelo que passei vai dar valor a coisas que eu nem percebia, eram tão naturais e embutidas. As pessoas vão me dar bom dia, boa tarde e boa noite no elevador! Pedir desculpas por esbarrar em mim e não vão perguntar quanto é o meu salário!

Bom, eu não vou alongar mais essa postagem porque ainda não é o fim da aventura! Quando eu voltar pro Brasil eu faço uma postagem enorme falando sobre o que eu penso a respeito de tudo isso. No mais as dúvidas ainda persistem. Eu quero encontrar algo que eu possa mais uma vez me dedicar e ir até o fim. Até lá aguardem que mais uma longa viagem me aguarda e mais histórias também! Um grande abraço!

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