quarta-feira, 13 de junho de 2012

Viagem ao norte da Índia e fim da experiência.

Olá pessoal! Já há um tempo que não posto no blog, mas finalmente na minha última noite em Mumbai arrumei um tempo para fazer a última postagem em solo indiano. O que tenho para lhes contar dessa vez é sobre o fim formal do meu intercâmbio e a minha jornada de um mês viajando pela Índia, mais precisamente no norte dela.

Lembro que na minha última sexta-feira do escritório eu escrevi algo como estaria sendo meu último dia de trabalho, mas ficou um post cheio de reclamações e de blah-blah-blah-não-quero-mais-saber-de-escritório. Um post muito chato e que depois de ter recebido um presente muito legal dos meus colegas de escritório (um conjunto de miniaturas de instrumentos musicais típicos indianos) resolvi apagar e desistir de postar aquele texto enfadonho.

No sábado eu fiz uma festinha muito louca no meu apartamento, todos os meus bons amigos de intercâmbio e até mesmo as coordenadoras do intercâmbio apareceram. Também apareceu gente que eu nunca vi na minha vida, mas a única coisa que me incomodou foi a ausência dos meus colegas de escritório que nunca fazem nada da vida a não ser trabalhar, dormir e usar facebook. O chato é que todos eles disseram que dessa vez iriam aparecer, mas deram bolo. Mas fazer o quê não é? Não sabem o que perderam!

Do fim de semana até a quinta-feira em que eu peguei meu trem até Chennai eu nem lembro mais o que fiz a não ser contar as horas para que quinta-feira chegasse logo, já estava de saco cheio de Mumbai e mal podia esperar para me livrar de todos os compromissos, inclusive a entrega e formalização do encerramento do meu contrato com meu apartamento.

Recebi muitos "Por que você está indo de trem para Chennai?". Pois, não me arrependo um segundo, me arrependo amargamente de não ter conseguido comprar o trem para a volta. Também acho que seria incrivelmente bom se o Brasil tivesse uma malha ferroviária que ao menos cortasse as capitais. Já teria viajado um monte dentro do Brasil. A viagem de trem de Mumbai a Chennai durou vinte e duas horas, mas pensem se eu não gostei. Achei o máximo! Muito confortável e barato (o equivalente a menos de R$50,00). Com o jantar, café da manhã e almoço gastei um total de cento e cinquenta rúpias (R$5,54 aproximadamente). Tendo um bom ar-condicionado, cama confortável com travesseiro e cobertor inclusos. Tive tempo de ler muito e pensar na vida. Além de ter dormido confortavelmente grande parte do tempo. Aliás, o balanço do trem funciona como uma massagem, é bem gostoso!

Em Chennai fiquei hospedado na casa do meu amigo aracajuano Anderson. Fui numa festinha aqui e ali, mas não fiz nada turístico em Chennai, fui lá mais para ver o pessoal do que por outro motivo. De lá eu peguei um voo para Deli. Lá não pude ficar hospedado na casa dos inter-cambistas do ACE program por um fato curioso. Eles moram num prédio de 4 andares onde a dona do complexo mora no primeiro andar e vive fuçando a vida deles e não permite que eles hospedem ninguém, nem que seja só por um dia. Então fiquei na casa do amigo de um deles. Era um lugar bem legal e com um importantíssimo ar-condicionado (tem feito de 42 a 45 graus Celsius em Deli esses dias). Os inter-cambistas do ACE program de Deli são a Luísa (Venezuela), Juan (Porto Rico) e Cristina (Costa Rica). O amigo do Juan que me hospedou é um indiano conhecido como Jay. Rapidamente fiz amizade com o Jay e ele me levou num clube de salsa onde pude improvisar minhas habilidades de dança em forró numa adaptação para o tal estilo. Foi engraçado, mas pude ver que o comportamento indiano em Deli é outra história. Pude livremente dançar com a indiana que eu quisesse. Nem gostei.

De lá fui com o Jay num clube onde o "trio de Deli" estava. Me diverti aos montes com todos eles. Minha sexta-feira a noite em Deli foi muito boa. Aliás, vamos falar um pouco sobre a capital indiana, é a minha segunda vez nela, mas como dessa vez eu estava sozinho e a pé, eu pude vivenciar mais a cidade. Devo dizer que é uma cidade totalmente diferente de qualquer outro lugar da Índia. Tudo é muito limpo e eficiente. Deli tem um sistema de metrô de última geração, muito confortável e impecável, também com um importantíssimo ar-condicionado. Durante os dois dias que passei andando por Deli eu visitei alguns pontos turísticos e fui a um shopping. Lembro de ter ido assistir ao filme Homens de Preto III, e como estava com minha câmera passei por uma situação inusitada, mas tipicamente indiana. Para comprar o ingresso, eu teria que submeter as baterias com a segurança do cinema. O problema é que o segurança do cinema disse que para submeter as baterias eu teria que apresentar o ingresso para o filme. Já viu não é? Esse tipo de situação já me aconteceu várias vezes, mas a solução infelizmente é ser um tanto quanto grosso e impor o que você precisa fazer. Tive que dizer ao cara do ingresso "olha a segurança é bem ali, por favor me dá logo esse ingresso e você vai poder ver daí mesmo que estou submetendo as baterias na segurança, ok?".

Um outro aspecto interessante sobre Deli é que os jovens namoram! A última vez que vi tantos casais de mãos dadas por aí foi na minha visita ao jardim botânico de Curitiba menos de dois meses antes de vir para a Índia. E os casais que vi são de jovens indianos. Não só nos pontos turísticos que visitei, mas nas ruas e em qualquer lugar. Vocês podem estar se perguntando por que a surpresa, mas para mim acabou sendo um choque cultural indiano. Em Mumbai as pessoas não namoram. Raramente se vê um casal de jovens de mãos dadas ou se tem sequer notícia de que alguém indiano está namorando um outro alguém indiano. Geralmente é aquilo que eu já disse, vivi cercado de pessoas jovens, solteiras e que só dormem, trabalham e usam facebook que do nada *puf*, casadas. Em Deli o estilo de vida parece ser mais ocidental (se bem que acho melhor dizer "fora Índia", porque no Japão e na Malásia as pessoas também namoram).

No sábado o colombiano Wilman (que fez parte do grupo da minha viagem ao norte da Índia) entra em cena e fomos sair por aí em Deli. À tarde fiz um cachorro-quente brasileiro e umas caipiroscas para o "trio de Deli" na casa deles, ficou muito bom e todo mundo adorou. Durante a noite a gente acabou parando numa festa muito louca de uns franceses em algum canto. Nunca vi tanta comida e bebida de graça. Tinha gente de todo canto como sempre. De países africanos até a Rússia.

Naquele dia meu celular ficou sem internet por motivos desconhecidos e eu não consegui achar a casa do Jay que eu tinha a localização salva no google maps, então eu dormi onde o Wilman se hospedou, num apartamento da AIESEC. Mesmo com um ventilador na cara eu suei feito um cuscuz, eles não tinham um importantíssimo ar-condicionado. Na manhã de domingo minha internet misteriosamente voltou ao meu telefone e eu fui na casa do Jay pegar minhas coisas e de lá partimos para a casa do "trio de Deli". Eu e o Wilman passamos uma situação engraçada. Totalmente porcos do dia anterior sem banho depois da festa e nem tomamos banho na casa do Jay porque iriamos suar mesmo, chegamos na casa deles e a eletricidade e água tinham faltado! O que nos restou foi uma cervejinha que ficou gelando desde o dia anterior e que naquele calor e naquela situação estava uma delícia! Depois de um tempão os indianos concertaram o problema e eu pude finalmente tomar um bom banho. De lá parti para a estação de trem.

O próximo destino se chama Amritsar, uma cidade do estado de Punjab, mais ao norte da Índia e que faz fronteira com o Paquistão. Na estação encontrei com a Maricela (Estados Unidos). Pegamos o trem para Amritsar e chegamos no outro dia pela manhã. Lá em Amritsar nos encontramos com o Wilman que tinha pego um trem que tinha partido uma hora antes do nosso. O grupo até então era eu, Maricela e Wilman.

Punjab é o estado de onde vêm aqueles homens de turbante. O clima lá era de calor infernal também. Ali há um histórico de conflitos com o Paquistão. A grande maioria do exército indiano é composto de homens que vêm de Punjab, pois a maioria deles são altos e fortes (mas acho que é mais pela barba, que mete medo nos inimigos!). Lembro que vi um vídeo no youtube de uns homens de turbante e barba num programa indiano quebrando tijolo e fazendo todo tipo de atrocidade com o próprio corpo. Eu me acabei de rir com o povo chamando eles de árabes tanto no título como nos comentários, porque para mim era "que absurdo, eles não são árabes, são de Punjab!". Mas o que soa óbvio para mim não é para quem nunca viveu na Índia, não é?

O ponto turístico principal de Amritsar é o Golden Temple (templo dourado). Milhares de pessoas fazem prece, comem comidas típicas e bebem da água do lago que cerca o templo. O lugar é muito bonito, mas você pode queimar o pé no chão de mármore! Nesse dia também fomos a um outro templo que era mais tranquilo e pacífico, o Golden Temple é lotadíssimo.

A outra atração principal é pegar um carro para Attari, a fronteira entre Índia e Paquistão. Lá acontece todos os dias uma apresentação militar entre o exército dos dois países. Eu não fazia ideia, mas cerca de 20 mil pessoas vão diariamente assistir a essa apresentação, inclusive muitos estrangeiros. Lembro que foi muito engraçado quando a Maricela descobriu que havia a cota para estrangeiros na platéia e o guardinha ficou implicando com o Wilman, pois naquele dia fomos numa loja para fazermos os turbantes Punjab na cabeça, enquanto que a Maricela revoltada ficava dizendo "Você está o julgando pela cor? Que absurdo!" o guardinha falava "Não, você é Punjab!" para o Wilman, e eu só rindo, porque o Wilman estava meio barbudo e realmente parecia um autêntico Punjab. Mas comigo eu tinha uma bandeira enorme do Brasil e os guardinhas foram convencidos de que éramos estrangeiros, e não Punjab.

Um fato chato que nos ocorreu na viagem é que onde procurávamos quarto sempre havia um impasse por sermos dois caras e uma garota. Isso mexia com o imaginário indiano. Eu realmente não sei qual o problema desse povo. Lembro que tive dificuldade de achar um quarto em Amritsar, e mesmo conseguindo um, eu soube com o Wilman que o carinha da pousada perguntou "e aí, o que está rolando entre vocês dois e essa menina aí?". Pensem, nem sequer iríamos dormir ali porque à noite pegamos um ônibus para Jammu, na Caxemira. Aliás, em que lugar do mundo a não ser na Índia tem algo errado dois rapazes e uma moça viajando por aí querendo um lugar pra colocar a bagagem e tomar um banho. Claro que somos só amigos e viajantes, mas na cabeça torta desses indianos, não. Na Malásia e no Japão jamais passei por nenhuma situação desse tipo, e meu grupo era eu e os aracajuanos Daniela e Anderson. Mas fazer o quê, não é? Choque cultural!

De lá partimos para Jammu só para de lá descermos do ônibus e pegarmos um carro para Srinagar, uma cidade mais ao norte (sim, no meio dessa viagem fomos até quase o extremo norte da Índia). Em Srinagar estávamos interessados em alugar um quarto numa casa-barco. No balcão de informações turísticos encontramos um rapaz indiano todo bombadinho e barbudo, todo todo pra cima da Maricela, com um incrível sotaque americano. Dizia ele "ah, eu morei em Boston, no caminho eu posso contar a história". Toda vez que eu tinha oportunidade eu tirava onda para a Maricela cantarolando uma música eletrônica que tá famosa agora "I'm sexy and I know it, I work out!" ("Eu sou sexy e eu sei disso, eu malho!"). Procuramos outras opções, mas tivemos que ficar com a casa-barco do indiano de Boston.

Continuamos a subida até chegarmos em Kargil. Não tivemos tempo de fazer muita coisa, mas devo fazer uma observação sobre a viagem. Muita coragem é requerida, porque você sobe pela encosta das montanhas a altitudes que podemos usar quilômetros para medir. O exército controla a área não só por causa da proximidade com o Paquistão, mas também porque é realmente necessário um tipo de controle de perto dessa área tão remota e montanhosa. O tráfego à noite é extremamente limitado e durante uma parte do dia só um sentido da pista é autorizado e na outra metade do dia o sentido oposto é autorizado. É necessário também apresentar e registrar o passaporte em alguns pontos de checagem. E no caminho também tive meu primeiro contato com neve na vida. Era uma neve que vem derretendo desde o último inverno. Não podemos dizer que era lá grande coisa, mas aguardem, eu tive meu contato com neve de verdade mais tarde!

Cedo na manhã seguinte pegamos um carro para Leh Ladakh, o ponto principal da viagem que fica a uma altitude de mais de três quilômetros e meio. Lá já começamos a sentir alguns efeitos da altitude como um pouco de tontura aqui e ali, cansaço rápido, etc. Também se juntou a nós, somente lá por ter vindo de avião ,a Luísa. Assim, o grupo ficou completo: eu (Brasil), Wilman (Colômbia), Maricela (Estados Unidos) e Luísa (Venezuela). Ela conseguiu achar uma pousada perfeita, impecavelmente limpa e barata, apenas quinhetas rúpias por dia (R$18,60), isso para dividir com outra pessoa, ou seja, duzentas e cinquenta rúpias (R$ 9,26)!

Estava fazendo muito frio, não estávamos preparados para tanto frio! Agora tenho muitas coisas para falar sobre Leh Ladakh. Não sei nem por onde começar. A cidade é muito limpa e organizada. A comida nos bares era excelente e muito barata. Essa viagem também foi um senhor tour gastronômico.

No primeiro dia em Leh nós alugamos umas bicicletas e fizemos um tour pela cidade. Fomos em alguns templos budistas e fizemos uma boa varredura na cidade. Lembro que no fim do dia subimos uma ladeira enorme (devo dizer que em Leh tudo é uma subida). Ao descer, para fechar o dia, coloquei nos meus ouvidos minha música favorita (Wasted Years, no fim da postagem fica a letra que simboliza totalmente o que senti por essa experiência do intercâmbio como um todo) e me mandei ladeira abaixo. No fim do dia o Wilman achou um restaurante chinês muito bom e no pé da pousada. Eu fiz todos rirem loucamente quando ele falou do restaurante e eu respondi "A gente precisa subir algo??". A noite não foi fácil para dormir porque acho que abusei sem ter ligado para a altitude. Fiquei com dor no peito e na cabeça. Mas valeu à pena.

No outro dia, como vinhamos fazendo, acordamos cedo e pegamos um carro para o Pangong Lake, um lago paradisíaco que fica na fronteira com a China. Totalmente lascado e encarando uma altitude de cinco quilômetros, no meio do caminho começou a nevar! Eu dei um grito em bom português "CARALHO! TÁ NEVANDO!" e a americana Maricela, acostumada com neve, se acabou de rir. Tomei um chai (chá indiano) na cafeteria mais elevada do mundo. Eu sentia como se estivesse dopado, e na ida ao banheiro tive que me segurar nas paredes no caminho.

Depois de descer um pouco nas montanhas chegamos ao lago. Eu estava me sentindo um lixo depois de sete horas viajando de carro nessas estradas onde não existem linhas retas. Mas se valeu à pena? Totalmente! O lago foi a coisa mais bonita que já vi na minha vida. A água era pura, incrivelmente transparente e o lago tinha uma cor de azul com verde muito peculiar. Uma coisa é ver a foto, mas estar ali, ao vivo, depois de tanto sacrifício, foi de lavar a alma.

Retornamos para Leh e mais uma vez fomos comer algo delicioso e barato por aí. No outro dia acordamos cedo e pegamos um carro para visitar os monastérios que ficam a cerca de Leh Ladakh. A paisagem geral de Leh e tudo que fica próximo é absurdamente bonita e surreal, não parece Índia, e tampouco é próximo de nada que eu já tenha visto. Uma das melhores coisas do dia também foi ver vários monges mirins correndo e se divertindo com a gente em um dos monastérios. Devido à proximidade do Tibet, Leh tem uma cultura essencialmente budista, e você encontra muitos livros e referências ao Dalai Lama.

Satisfeitos com a viagem a Leh Ladakh encerramos o dia e finalmente decidimos acordar só um pouco mais tarde no outro dia para iniciarmos a descida e irmos para Manali e de lá para Deli. Pegamos um transporte na mesma agência que vínhamos contratando desde o começo da viagem. O fato engraçado é que um dos caras, um rapaz todo cheio das armadas e todo bem vestido, um típico playboy, era apelidado de "Chapa" pelos amigos, e assim ficamos chamando ele a viagem toda. Mas, só no dia em que fomos visitar os monastérios é que o próprio Chapa nos revelou que o significado de "Chapa" é "Playboy" na língua local. Isso foi um fato que nos fez rir e fez parte de várias piadas internas durante o resto da viagem.

Chegamos em Manali na noite do outro dia (mais de doze horas de viagem). Devo dizer que essa viagem foi um enorme sacrifício no começo, pois durante à noite pegamos temperaturas abaixo de zero e não estávamos tão agasalhados assim. Eu senti um frio terrível e medonho durante alguns trechos da viagem, mas Mamis não se preocupe, se a coisa ficasse mais séria eu pegaria várias roupas na mala para me aquecer, eu aguentei como pude os trechos iniciais, porque mais tarde o clima ficou bem agradável, porque estávamos descendo. É incrível como a altitude exerce uma influência sensível na temperatura.

Também devo dizer que já posso me casar com a neve. Somos íntimos agora! Enquanto ainda estávamos na altitude e cercados de muita neve fofa no caminho para Manali, me bateu uma vontade imensa de ir ao banheiro para fazer o número dois. Então pedi o papel higiênico da Maricela emprestado e mandei um "I can't take anymore, I will do it on the snow!" ("Não aguento mais, vou fazer na neve mesmo!"), rapidamente ela e a Luísa perceberam do que eu estava falando e se acabaram de rir. Lembro que morrendo de frio eu olhava para um lado e outro e nada de achar uma moita ou coisa parecida. Acabei achando umas rochas com um esconderijo perfeito. O problema é que um militar ficou uns dois minutos me olhando, eu parado olhando para as pedras com um papel higiênico na mão só pensando em bom português "OU SEU INDIANO CURIOSO FÉLA DA PUTA, VAI-TE EMBORA QUE EU QUERO CAGAR PORRA!!". Finalmente o militar indiano foi-se embora e eu pude deixar minha marca no Himalaia.

Em Manali nos despedimos da Luísa que teve que ir diretamente para Deli. Então, o grupo estava como no início e passamos uma noite ali. Descobrimos um bar muito bom e barato onde jatamos fartamente, tomamos café da manhã no outro dia e jantamos antes de irmos para Deli. A comida ali é era incrível e provamos muitas coisas diferentes e muito, muito boas. Durante o dia nós só fizemos uma longa caminhada para umas cachoeiras e depois nos preparamos para Deli.

Bom, o resto da viagem é só minha volta direto para Deli e de lá para Chennai. Em Chennai eu pude participar do aniversário do meu amigo John da Colômbia, lembram dele? Aquele mesmo que dividiu a acomodação da TCS comigo e com o Anderson, bem no começo de toda essa aventura. Bom, eu poderia dar mais detalhes sobre o que fiz e dar mais opiniões sobre o que vi, mas tenho que ser rápido. Não quero deixar para postar no Brasil, meu tempo em Mumbai foi curto e corrido e meu voo sai em poucas horas. Espero que tenham gostado da postagem e tenho certeza que tenho muitas histórias para contar e opinião própria sobre tudo isso. Estou aberto para falar sobre toda essa experiência com qualquer pessoa que tenha paciência para me ouvir.

Agora para encerrar, devo dizer que o intercâmbio como um todo foi uma experiência incrível e mudou completamente minha vida. Me sinto um cara muito mais maduro e pronto para qualquer desafio. Tenho certeza que todo esse aprendizado e amadurecimento vai me servir para qualquer caminho que eu escolha daqui para frente. As pessoas me questionam muito e ficam muito curiosas para saber qual o meu próximo passo, talvez porque agora sabem que eu não tenho medo de enfrentar qualquer desafio onde quer que seja. Mas, devo dizer que quero buscar uma independência maior, uma plena independência financeira, mas ao mesmo tempo buscar algo que vá me gerar aquilo que tanto procuro. Então, paciência, o que eu escolher para seguir, seguirei com coragem e disposição! Acredito e sou confiante em mim, não tenho mais tanto medo do que vem pela frente. E que venha a próxima luta! Um grande abraço para todos os leitores desse blog, espero que eu os tenha enriquecido com algum conhecimento de alguma forma!

Segue a letra da minha música favorita e que para mim simboliza toda essa experiência e todas essas viagens que fiz, em um ano, o que eu presenciei e vivi.




Iron Maiden - Wasted Years


Vindo da costa de ouro, cruzando os sete mares
Eu estou viajando, bem longe
Mas agora parece que, eu sou um estranho para mim
E todas as coisas que algumas vezes fiz, não era eu, mas um outro alguém

Eu fecho meus olhos e penso em meu lar
Outra cidade passa, na noite
Não é engraçado como é, você nunca sente falta até perder
E meu coração descansa ali e alí ficará até o dia de minha morte

[Refrão]
Então entenda
Não perca seu tempo sempre procurando aqueles anos perdidos
Encare... tome posição
E perceba que você vive nos anos dourados

Tempo demais em minhas mãos, Eu te tenho em minha mente
Não consigo aliviar esta dor, tão facilmente
Quando você não consegue achar as palavras para dizer, é difícil sobreviver um novo dia
E isso me faz querer chorar e erguer minhas mãos para o céu

[Refrão]
Então entenda
Não perca seu tempo sempre procurando aqueles anos perdidos
Encare... tome posição
E perceba que você vive nos anos dourados












quarta-feira, 2 de maio de 2012

De olho na reta final


Bom pessoal, eu sei que faz um tempo que não escrevo para o blog. Não por falta de tempo, mas talvez por falta de viagem. Aqui acontece muita coisa, mas me parece tão natural as idas e vindas do sábado a noite onde eu sempre acabo conhecendo alguém de mais algum canto desse planeta. E tenho muitas histórias pra contar que será melhor gesticular e interagir comigo que ler elas no blog. Desde o começo sempre selecionei, histórias pro blog e histórias pra mesa de bar. Quando viajo eu vejo muita coisa que vale a pena registrar e descrever cada detalhe. Mas também vejam pelo meu lado, tem confusões, armadas e aventuras que são pessoais demais pra deixar aqui onde todo mundo lê.

No mais, deixando as desculpas esfarrapadas de lado por não escrever por falta de saco e por muita coisa ter acontecido. Eu tenho ficado um pouco lesado. Esse último mês o dia-a-dia devagar e conformado dos indianos me contagiou. O gás da cozinha acabou já fez um mês e nem me faz falta, parei de cozinhar. Tenho comido mil e um chapattis e dormido demais. Também parei de ir na academia, última vez que fui lá o equipamento de fazer exercício de perna e abdomen quebrou e depois de dois meses se brincar ainda tá lá quebrado. Vocês não fazem ideia de quanto tempo leva pra um indiano concertar algo quebrado. Lembro do banheiro do meu andar ter passado mais de um mês interditado, já faz também quase um mês que o bebedouro do meu andar quebrou e eu vou no andar de baixo pra pegar água gelada.

E olha que eu trabalho na TATA, a empresa que detém uma fatia imensa nos lucros da economia indiana. Sem contar o que vejo na rua. A maquininha de passar o ticket do trem quando fica sem tinta passa até duas semanas tendo eu que usar o carimbo até um funcionário chegar e trocar. E quando um papelzinho emperra que é só o cara abrir e tirar o pedacinho que enganchou, tome duas ou três semanas carimbando o papelzinho porque o cara que mexe na máquina só vai lá sabe-se lá quantas vezes no mês. Se eu for listar as coisas que vejo e que passado quase um ano eu não consigo me acostumar, inclusive no meu ambiente de trabalho, deixa pra lá.

Vamos falar do que é agora poder ver o fim dessa aventura Índia, apesar de que ainda falta um mês e pouco pro meu retorno, ainda falta uma viagem e uma quantia de fins de semana que dá pra escrever um livro de tanta coisa que provavelmente acontecerá. Devo dizer que eu fico feliz, preciso ver minha mãe mais do que nunca e comer todo o tipo de coisa que tenho saudade. Me perguntam se vou sentir falta da Índia. Bom, como na minha cabeça as boas memórias sempre são maiores e mais lembradas que as ruins (sim, ao contrário de muita gente que vive mandando mensagem no facebook com mil e um ensinamentos chineses e não consegue parar de falar mal do Brasil, felizmente minha cabeça nasceu assim, tomara que não mude nunca!) eu vou sentir falta daqui também. Mas não desse ar poluído e barulhento de Mumbai. Não das coisas que levam mil anos para ser concertadas ou do sorriso amarelo quase que me dizendo ‘não sei do que você está falando’ dos meus colegas de trabalho quando falo que é um absurdo estarmos numa companhia bilionária usando esses computadores há muito obsoletos e com esses monitores CRT (aqueles de tubo) que gastam muito mais energia e vista. Sinto falta dos papos cabeça com meus amigos sobre o que nos revoltam e o que poderia ser feito, não que a gente saia por aí e aja, mas discutir já é um bom começo. Os indianos aqui não discutem nada, aceitam tudo.

Eu vou sentir falta do rickshaw barato que me leva aonde eu quero, pois com o google maps do meu celular eu sei onde eu estou sempre. Apesar de que (não chamando o coitado do motorista de animal) é como aprender a andar de cavalo, o rickshaw tem vontade própria e pode simplesmente não querer te levar lá. Vou sentir falta de conhecer e discutir os mais variados assuntos com pessoas do mundo todo, inclusive os indianos mais mente aberta que também contam como pessoas do mundo todo na minha lista. Aliás hoje eu tava comentando com meu colega de trabalho, não só agora tenho amigos no mundo todo quanto nesse mundo Índia. Tem bem uns 5 ou 6 estados que se eu for lá terá um indiano pra me dizer que língua falam e o que fazer por lá. Então tem essa também, há um certo intra intercâmbio chamado Índia. Já ouvi gente dizer que eu fui a mais lugares na Índia que ela própria. Mesmo assim falta muito o que se ver na Índia. Do mesmo jeito que falta muito o que se ver em todo o mundo. Do mesmo jeito que falta muito o que se ver no meu Brasil. Falta muito o que se ver no Nordeste. Falta muito o que se ver em Sergipe, falta ainda algo que não vi na própria Aracaju de onde vim. Que pena eu não ser imortal e poder ver tudo isso. Mas tomara que eu continue tendo a sorte de poder ver muita coisa!

Vou sentir falta de falar português e isso ser um extra. Vou sentir falta de falar português e relaxar com isso. Vou sentir falta de negociar em hindi a cerveja que não pode ser comprada depois da meia noite. Vou sentir falta de barganhar. Vou sentir falta de tomar uma decisão em um segundo sobre o próximo lugar distante que eu quero ir. Vou sentir falta de fingir estar entendendo quando eu num sei de nada e fingir não saber de nada quando na verdade eu entendi tudo (é o truque do intercambista, porque inglês ou hindi, nenhuma delas é sua língua materna), aprendi a ser ator aqui. Vou sentir falta de dizer adeus todo fim de semana pra uma pessoa que vai atravessar oceanos e de dar boas-vindas na mesma festa a pessoas que acabaram de chegar, como se estivéssemos num reality show sem fim. O ciclo dos que chegam e dos que vão está sem fim aqui.

Vou sentir falta de acumular tantas histórias em tão pouco tempo. Principalmente, vou sentir falta de loucamente conhecer novas pessoas o tempo todo. Os rotos não se repetem nas festas e as pessoas nunca são seus vizinhos de bairro. Uma coisa não vou sentir falta porque ela vai continuar comigo aonde eu for. Agora quando vejo um estrangeiro, não vejo mais uma oportunidade de praticar meu inglês que não está bom o suficiente ainda e ficar se achando depois, nossa falei com fulano de tal lugar, agora vejo só mais um amigo em potencial, alguém que vai ter algo interessante pra contar, mas de um jeito que é como se fosse só mais um convidado do churrasco. É engraçado falar com um japonês sobre o que você viu na infância e nem se tocar do fato de ele vem do outro extremo do planeta. É engraçado falar com uma americana dos seriados da TV e da diferença do sotaque britânico, tão natural quanto se eu falasse da novela das oito e rir do sotaque pernambucano. É engraçado se gabar do pentacampeonato brasileiro como se eu tivesse me vangloriando pelo campeonato brasileiro alcançado pelo meu time. É engraçado dançar aquela música árabe que tocava no clone ‘Habibiiiii Habibiiii’ com um egípcio e uma garota da Tunísia e deixá-los se questionando de onde diabos ouvimos aquela música tão famosa no país deles, como se fossem nordestinos questionando um gaúcho que sabe ‘Asa branca’ de cor. Situações do tipo eu vivenciei um bocado e disso eu vou sentir falta, vou sentir falta de vivenciar isso toda semana.

Por outro lado agora eu amo minha Aracaju de paixão. Tão limpa e bonita. Temos muitos problemas, mas temos muita gente reclamando de barriga cheia. Mas também digo que só saindo para dar valor. O jeito que vejo Aracaju e seu lado bom, só quem passar pelo que passei vai dar valor a coisas que eu nem percebia, eram tão naturais e embutidas. As pessoas vão me dar bom dia, boa tarde e boa noite no elevador! Pedir desculpas por esbarrar em mim e não vão perguntar quanto é o meu salário!

Bom, eu não vou alongar mais essa postagem porque ainda não é o fim da aventura! Quando eu voltar pro Brasil eu faço uma postagem enorme falando sobre o que eu penso a respeito de tudo isso. No mais as dúvidas ainda persistem. Eu quero encontrar algo que eu possa mais uma vez me dedicar e ir até o fim. Até lá aguardem que mais uma longa viagem me aguarda e mais histórias também! Um grande abraço!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Viagem ao Japão parte VI e Holi, o festival das cores


Olá pessoal! Desculpem-me ter demorado tanto pra escrever. A viagem ao Japão já fez mais de um mês, mas eu preciso encerrar esse capítulo! Não vai demorar muito, relaxem. Antes disso devo dizer que demorei tanto porque de repente tive tanto trabalho, mas tanto trabalho! Acho que trabalhei uns quatro meses em um. Às vezes fiquei muito chateado por não ter tempo, quero fazer muita coisa. Todo dia eu quero aprender um pouco mais de Hindi, ler um livro, falar com meus pais, assistir a algum seriado. Mas, é impossível fazer tudo isso com as poucas horas do dia que me restam depois de um dia de trabalho, e escrever pra este blog então, acaba se perdendo na lista de prioridades. Estou escrevendo só agora porque achei um tempinho livre aqui no trabalho.

Sem mais enrolação e fazendo esforço para lembrar o que precisa ser escrito. Quando partimos de Tóquio para Osaka pegamos um dos trens que devíamos pegar invés daquele que vai direto só parando em Yokohama. Porém, não pudemos saber o porquê, mas o trem foi cancelado quando parou em Nagoya. Acabou que ficamos presos lá, o próximo trem só sairia por volta das 6 e meia da manhã do outro dia! Não queríamos gastar muito dinheiro para passarmos só algumas horas num hotel, tentamos ficar ali mesmo na estação, mas todos foram obrigados a sair e deixar a estação vazia. Tudo que havia era um restaurante 24h em frente à estação. Pensamos que poderíamos pedir qualquer coisa e dormir com a cabeça abaixada na mesa, mas não... ali era terminantemente proibido dormir e volta e meia uma tia vinha pra acordar a Dani que queria dormir toda hora. Teve até um que foi expulso porque não conseguia acordar, mesmo com o prato feito na frente dele resolveram cancelar, não aceitar o dinheiro dele e levar ele pra fora. O restaurante tava cheio de pessoas na mesma situação. Se ferraram porque o trem cancelou e não podiam fazer mais nada a não ser esperar.

Nessa, ainda com meu espírito “caralho, eu tô no Japão!” resolvi encarar a situação com bom humor e fui para uma dessas milhões de lojinhas de conveniência que tem em cada quarteirão do Japão. Lá aproveitei pra comprar umas cervejas e ficar bebendo do lado de fora enquanto encarava Dani e Anderson dentro lutando contra o sono. Pra falar a verdade estávamos absurdamente cansados, precisávamos mesmo dormir, mas o fato é que só eu tenho baterias de lithium.

E fiquei ali brincando de tomar cerveja e fazer fumacinha com o frio (eu nunca canso de fazer isso no frio, acho que tenho problemas!). Também pude constatar que Nagoya era um lugarzinho errado pra caramba! Eu dei uma volta no quarteirão só de onda e o que eu vi de japonesinha bêbada àquela hora da madrugada chegando com os playboyzinhos de carro e olho puxado. É meus caros, não importa pra onde você vá, se há dinheiro e modernidade, as mesmas criaturas surgem não importa onde.

Outra brincadeira que eu fazia era deixar a lata de cerveja na cestinha de uma bicicleta que tava na rua, entrar no restaurante pra conversar com Dani e Anderson, ir no banheiro, e voltar pra latinha intocada. Depois disso tive que pedir algo, porque além de não poder dormir o cliente não pode ficar sem consumir por mais de uma hora e meia (muito espertinhos, já devem ser acostumados com os viajantes dos trens bala).

Finalmente amanheceu e partimos para Osaka. Ficamos um tempo no aeroporto e tchau Japão! Iniciei minha jornada de volta a Mumbai, pensem de uma vez só fazer Osaka para Kuala Lumpur, Kuala Lumpur para Chennai, Chennai para Mumbai. Cheguei em casa morto! Bom, já falei muito do Japão nas outras postagens e encerro finalmente a viagem aqui. Eu só sei que um dia vou voltar lá com todos os meus amigos viciados em Japão assim como eu, e dessa vez vou sabendo nem que seja um nível intermediário da língua japonesa! Promessa é dívida, nem que eu já esteja casado e com dez filhos, mas eu vou voltar pra te visitar Japão! Acho que descobri uma parte do seu segredo de organização, vou tentar aplicar isso na minha vida quando voltar, vou testar no meu quarto primeiro, acho que minha mãe vai achar uma ótima ideia.

Agora vamos falar do Holi, o festival das cores! Acontece no dia 8 de março e é um festival popular. Não tem cunho religioso, então é finalmente um feriado onde você pode ficar louco, pintar todo mundo, sair todo imundo de tinta na rua, melecar o McDonalds, etc. Eu nunca vi a Índia tão louca e zoada como nesse dia. Foi realmente divertido. Não que o povo se agarre na rua, mas mil vezes o Holi que o carnaval.

Fizemos uma reunião próximo a Andheri. Lembro de ter brincado bastante com umas crianças que tinham pistolas de água. Saí molhando o povo todo! Lembro que no fim do dia todo mundo com tinta até no cérebro rasgaram a camisa de todos os caras, inclusive a minha (já tínhamos sido avisados pra usar uma camisa que não fôssemos mais usar). No fim das contas virei um mendigo colorido!

Assim encerro mais uma postagem. Dessa vez não tenho tanto pra escrever porque estive realmente ocupado esse mês. E agora então, estou vendo a reta final do meu intercâmbio na Índia. Meu visto indiano expira no dia 17 de junho, então essa fica sendo a data limite para o meu retorno ao Brasil. Quando eu tiver uma data definitiva eu divulgo. Não vejo a hora de comer pastel, tapioca, churrasco, tomar açaí, skoll geladíssima e ver mulher de biquini na praia que fica logo ali. Um abraço!

terça-feira, 6 de março de 2012

Viagem ao Japão Parte III: “Muqueca né?”


Só mais uma pausa para falar de mais um fato interessante. Talvez nem tanto, enfim. Enquanto aqui na Índia com aquele calor de rachar eles te fazem beber um copo d’água “natural” (pra mim não tem essa de natural, é quente), lá no Japão, naquele frio de lascar, te dão um copo d’água geladíssimo e com bastante gelo ainda mais! Como deve ser! Mais um ponto para os japoneses, afinal não importa que temperatura esteja fazendo, cerveja e água devem ser gelados e pronto! (tô zoando viu, sem problemas se você costuma pedir água de coco natural ou suco de laranja sem gelo).

Vamos para Tóquio, enfim! A jornada começa pegando o trem bala na estação de Kyoto. A sensação é engraçada. Você está num trem, mas não sente a roda no trilho. A sensação é de estar no avião próximo à velocidade de decolar, mas o avião nunca decola. E o balancinho também é diferente. Pra você brasileiro que não viaja de trem infelizmente (infelizmente mesmo! É uma vergonha não termos trens entre as capitais e principais cidades! Na Índia você vai para todos os cantos de trem. E no Japão você vai até ao banheiro de trem, enfim) não vai saber a diferença entre o trem bala e o trem normal. Mas se você já viajou de avião, o balancinho que o trem bala dá tem a mesma sensação do balanço do avião.

A paisagem japonesa é muito diferente da do Brasil quando se fala em viajar por terra. Enquanto viajando pelo Brasil vemos aquelas imensidões de fazendas ou terras sem nada ou só vegetação, no Japão só não tem coisa nos morros e encostas das montanhas. Porque o que se vê é sempre casas, prédios e fazendinhas (como se fossem uns quarteirões todos bem bonitinhos, muitos com equipamentos de estufa e sempre perto de casas, o “interior” japonês ainda assim é um pouco urbano). Mas nada, nem mesmo por um quilômetro seguido, se compara àquelas imensidões desabitadas que temos nas beiras das estradas brasileiras, mas nada perto daquilo mesmo! E sem esquecer que no plano de fundo sempre há uma cadeia montanhosa. Também de dentro do trem bala para Tóquio se destaca uma montanha totalmente branca. Ela se destaca mesmo, porque o sol bate na neve branca e faz com que aquele monte fique destacado, como que de propósito naquela paisagem marrom e verde. Sim, é o monte Fuji. Pretendo visitá-lo de verdade um dia. Aquilo parece ser algo que precisa ser visto com calma e apreciado de perto.

Também pude ver um pouco de neve acumulada na beira da ferrovia. Mas ainda assim, indo ao Japão, não matei meu desejo por ver neve caindo do céu (por tão pouco! Soube que nevou em Tóquio cerca de uns 3 ou 4 dias depois que parti do Japão). Uma dica importante aos turistas é que há dois tipos de trem bala que você não pode pegar com seu J-Rail Pass, o “NOZOMI” e o “MIZUHO”. Eles são iguais aos outros, mas a diferença é que param em poucas estações. Esse que pegamos, por exemplo, só pára em Yokohama antes de seguir para Tóquio. Tivemas uma senhora sorte porque a guardinha, muito educada, tentou se comunicar comigo em japonês, e iria nos cobrar mais de 12mil yenes (R$255) pela passagem. Eu nem tava com esse dinheiro na hora. Então ela, como percebeu que não tínhamos feito por maldade, apenas pediu que trocássemos de trem em Yokohama (um dos tipos é o “HIKARI”, você vai pingando em um bocado de estações, mas é o que o seu J-Rail Pass lhe dá direito a quantas vezes você quiser andar nele, lembrando que é o mesmo trem bala, só muda isso). Ela me deu até o horário exato do trem bala que eu ia poder pegar! Tudo muito explicadinho (mas claro, eu só entendi o que deu), anotado num papel. No fim eu falei sorrindo “Wakarimashita! Domo arigatou!!” (“Entendi! Muito obrigado!!”). Ela fez aquele mesmo sorriso surpreso que adoro arrancar dos indianos quando falo Hindi. Nem me senti!

Passado o susto, chegamos em Tóquio no fim da tarde. Tínhamos que chegar numa estação chamada Kagurazaka. Mas pessoal, diferente dos trens de Mumbai onde eu já decorei o nome de 80% das estações (na linha central eu já sei até a ordem!). A malha ferroviária de Tóquio é sem noção! Um emaranhado de trens e metrôs. Não importa se sua avó mora no subúrbio ou na caixa-prego, você vai chegar lá de trem. E ficamos ali sem conseguir entender aquele sistema complexo e o quanto a gente deveria pagar pelo trecho (o J-Rail pass só cobre uma linha que cruza algumas das principais estações). Um trecho custa no mínimo 120 Yenes (R$2,50). É caro se comparado à Índia, onde você paga Rs. 8/- (R$0,28) e vai de uma ponta a outra de Mumbai, mas a qualidade é incomparável (e a lotação também). Massa mesmo é em Aracaju-SE, onde se paga o valor do trem japonês para andar de ônibus (e não importando o tamanho do trecho), pelo que tenho visto na internet.

Eu sei que eu tenho feito pausas demais pra finalmente falar o que fiz em Tóquio. Mas vale mais essa. Vamos falar agora do transporte no Japão. A quantidade de carros nas ruas é relativamente baixa (ou talvez seja só impressão, por conta de todas aquelas avenidas largas, até mesmo na pacata Osaka havia algumas). Os carros não buzinam de jeito algum. Pra falar a verdade se você fechar os olhos em qualquer lugar do Japão, até mesmo em Tóquio, você vai achar que tem 10 pessoas e 2 carros na rua. Você só se toca quando abre os olhos. Japonês sabe falar baixinho e ficar quieto, uma qualidade muito boa que eu preciso absorver deles! O meio de transporte principal depois do trem é a bicicleta. Você pode largar sua bicicleta em qualquer lugar, sem cadeado algum. Ninguém vai mexer nela. Isso significa que você pode estacionar sua bicicleta para fazer compras ou até mesmo largar ela de frente pra estação de trem ou metrô e buscar ela na volta. Perfeito! Eu não usaria carro se vivesse num lugar assim! As calçadas são largas e pedestres e ciclistas têm juízo. (Já em Mumbai quase ninguém anda de bicicleta, vale mais a pena ir andando, é tanta gente que o espaço de uma bicicleta chega a ser um desaforo! Em Aracaju a gente não faz isso porque poderiam até espalhar vários locais onde você poderia trancar sua bicicleta, mas o povo lá é metido a besta, quem é que quer chegar de bicicleta? O povo lá quer chegar de carro até mesmo se o restaurante for a cem metros de casa).

Claro que devem ter outras coisas que eu tenho pra falar dos japoneses, indianos e aracajuanos, mas vamos deixar isso para um bom papo numa mesa de bar onde eu posso comparar alguns pontos de vista. Sem mais pausas vamos para Tóquio! Com a ajuda de uma mulher bem estranha a gente conseguiu chegar na estação certa. No fim entendemos o esquema do trem de Tóquio! (Ponto para mim! Já sei me virar de trem em Tóquio, quem for pra lá me chame!). A acomodação foi mais uma vez arrumada por Dani (mais um muitíssimo obrigado para ela, pensem numa pessoa que sabe a arte de viajar!), foi um tipo de couch surfing (surf de sofá). Nisso você se hospeda por alguns dias na casa de alguém de graça em troca de intercâmbio cultural (seja cozinhando algo, ensinando sua língua ou ensinando inglês). Existem sites na internet onde você pode procurar por isso, mas claro que sempre tenha muito cuidado e pesquise direitinho pra onde você tá indo (a sensação que tive agora foi a dos caras que fazem coisas legais na TV, sabem que são legais, estão loucos para dizer “façam porque é muito foda!”, mas têm que dizer “não façam isso em casa!”). Enfim, eu confio na Daniela e no fim das contas foi muito legal sim!

O “host” (o hospedador) se chama Hiroshi. Ele já é bem acostumado a fazer esse tipo de coisa. Também já viveu nos EUA por um tempo. A casa era muito legal e japonesa (vocês já sabem o adjetivo que já vem embutido nessa palavra, não é?). O nosso trato foi trazermos comida indiana e cozinharmos alguma comida brasileira. Trouxemos massa para fazer chappati (um tipo de pão), massalas (pimentas indianas em pó), pimentas (o fruto), curries indianos (acho que a gente pode dizer que é “coloral”) entre outras coisas. A comida brasileira que fizemos foi muqueca, como já havia dito. O engraçado de procurar verduras fora do Brasil são os tamanhos e aparências dos vegetais e frutas nos outros países. O pimentão japonês era pequenininho, parecia de brinquedo (o pimentão indiano é igualzinho ao brasileiro), a cebola, diferente da cebola indiana que é pequenininha, devia ser transgênica ou proveniente de Itu, eita cebola gigante! O alho então, cada dente tem o conteúdo de uns quatro ou cinco dentes. O limão não é redondinho, é aquele que tem um formato bem diferente que a gente vê nas figurinhas que representam um limão, mas que não tem nada a ver com o limão que a gente está acostumado a ver. O tomate na mesma situação da cebola, é o dobro do tamanho do tomate brasileiro e quatro vezes maior que o tomatinho indiano. O mais engraçado é que a missão de comprar tudo isso foi dada a mim, Dani e Anderson estavam cansados e com frio, enquanto eu estava no espírito “puta-que-pariu-eu-tô-em-Tóquio-velho!!!!”.

No fim das contas eu achei tudo. Ou quase tudo, teve umas folhinhas que deveriam ser qualquer coisa menos o coentro que Dani pediu. Mesmo assim ela ainda foi na minha onda de colocar aquilo dentro da muqueca. Pelo menos não estragou a muqueca, não foi o mesmo sucesso que ficou a de Chennai, mas ela ficou boa, relaxem aí. O arroz era umas bolinhas estranhas, eu tentei, tentei cozinhar aquilo, mas ficou uma papa. Pelo menos embolado na farinha de carne seca e na muqueca, ninguém notou que o arroz estava mesmo pura papa!

Bom, aos trancos e barrancos a muqueca ficou boa e todos nós e os japoneses da casa do Hiroshi gostaram e comemos tudo. Durante isso eu conversei muito empolgado com os japoneses. Falei o que eu sabia de japonês, dos animes que assisti, dos personagens, o que passou no Brasil quando eu era criança. Ninguém lá sabia quem era Jaspion! O problema é que como todos nós tínhamos de 20 a 25 anos, e Jaspion foi da década de 70 (no Japão), nenhum japonês da nossa geração assistiu, mas como chegou no início dos anos 90 no Brasil, a gente assistiu como se fosse do nosso tempo!

Lembro do japonês me mostrar o número um do mangá de Dragon Ball, e ele tinha a coleção toda! O Hiroshi me prometeu que quando vir ao Brasil vai me trazer um número daquele, eu disse pra ele que em troca vai levar uma camisa da nossa seleção pra casa. Bom, depois de conversar um monte com os japoneses (Dani e Anderson ficaram mais observando toda a abestalhação do menino que finalmente se encontrou com seus “conterrâneos”), fomos dormir.

Por negligência, ou talvez, junto com isso o cansaço da mudança repentina de clima e fuso horário, só acordamos lá pelas onze da manhã. Combinei de encontrar o Akira (aquele japonês que conheci em Chennai) na estação de Kichijouji, próximo de onde ele mora. Quando o encontramos comemos um McDonald’s e ele nos falou que vai voltar à Índia em breve para ir num casamento indiano de um amigo dele (espero que isso aconteça algumas vezes comigo também no futuro!). De lá fomos num Karaoke. Teria sido impossível se não fosse um japonês com a gente, pois as atendentes não falam inglês, o equipamento do Karaoke é totalmente em japonês, enfim, se você quiser cantar num Karaoke japonês terá que fazer um amigo japonês também!

As músicas que cantei foram Kurenai do X-Japan, Junjou na Kanjou e Tactics do anime Samurai X. Para conseguir cantar eu usei o celular do Akira para ver as letras das músicas no nosso alfabeto, já que a letra das músicas do Karaoke apareciam todas no alfabeto japonês. Eu sei que eu me diverti absurdamente, foi como realizar um velho desejo que eu tinha de cantar num Karaoke japonês. Saí todo empolgado, e o Akira também, diz ele que minha pronúncia em japonês é perfeita, parece até que eu sei a língua. O que de fato na verdade só cantei bem porque eu já ouvi essas músicas milhões de vezes. Queria ter canto mais, porém o Akira tinha uma entrevista de emprego e teve que ir. Uma pena!

Após isso, fomos à cidade eletrônica de Akihabara. O aspecto de lá é bem futurista. Com todos aqueles prédios envidraçados, telões e propagandas. Esse lugar é famoso por vender eletrônicos e artigos relacionados aos animes e os mangás. Eu vi muito nerd comprando esse tipo de coisa. Sem contar que Akihabara era muito barulhenta e o engraçado é que toda vez que o barulho diminuia a gente se dava conta que estava saindo de lá. Também aproveitamos para comprar uns presentes.

Depois de Akihabara resolvemos ir à Tóquio Tower. Um monumento estilo a torre Eiffel. De lá é possível ver como Tóquio é densa. Era impressionante a quantidade de prédios por cada quarteirão, tudo muito juntinho. Aonde a vista alcança você consegue ver aquelas luzes vermelhas piscantes do topo dos prédios. Não se via o fim da cidade e a paisagem iluminada era hipinotisante. Um lugar realmente singular a ser visitado.

Quando voltamos, antes de dormir, joguei um pouco de Winning Eleven (um jogo de futebol famoso do Playstation) no PS3 com os japoneses. Fizemos Brasil contra Barcelona. O problema é que o uniforme da seleção era totalmente verde. Eu fiquei indignado, e o pior de tudo é que o uniforme número dois era verde com branco! Dois uniformes que jamais existiram! Bom, eu perdi as duas partidas, mas botei a culpa na camisa, cada uma! Se eu tivesse jogado com a amarelinha teria ganhado de certeza, hum!

Bom, o restante da aventura eu vou contar na próxima e última postagem sobre a viagem ao Japão, relaxem porque a “viagem” acaba aqui, porque no outro dia até a vinda de volta a Mumbai só deu atrapalhada. Então basicamente vou contar o que deu errado e minhas conclusões sobre mais essa aventura. Um abraço!




quinta-feira, 1 de março de 2012

Viagem ao Japão Parte II: “Iron Maiden né?"


Ao acordarmos descobrimos que Osaka não é tão inocente assim e que provavelmente as garotas dos anúncios da revistinha do bar onde comi meu primeiro yakisoba japonês não moravam muito longe dali. Passeando pelas ruas bem bonitinhas e estreitas passamos por casas onde haviam mulheres sorridentes com a porta aberta, decotão a amostra e tabelas ao lado com preços e quantidades de minutos. Ali com certeza não era tempo para tirar foto ou conversar. Elas ficavam sentadas em almofadas como se elas fizessem parte de uma vitrine, tinha toda uma decoração em volta, roupa toda tradicional, porém com um senhor decote. Não que o bar onde trabalhamos tenha a ver com isso, e as japonesas generosas se situavam numa rua bem particular e eu lembro do marido da dona do bar citando sobre isso. Mas ele citou como se fosse nada, eu tenho a impressão que prostituição é legalizada no Japão, esqueci de perguntar, porque tanto a revista como as garotas não pareciam nem um pouco coisa ilegal ou que você precisasse fuçar muito para achar.

Passeamos mais pelas lojinhas de Osaka. O aspecto dessa cidade é algo como uma cidade do interior, claro que na versão japonesa. Compramos algumas lembrancinhas, almoçamos num restaurante bem legal. Mais uma vez você podia notar a forma de informação visual que os japoneses implementam. Na entrada você tem todos os pratos de mentirinha, feitos de plástico, mas tão bem feitos que alguns parecem de verdade. Lá dentro você encontra um cardápio com as imagens dos mesmos pratos. Ou seja, não importa se você não sabe japonês ou se já entrou no restaurante sem decidir o que queria, a informação visual está sempre a sua disposição. E os japoneses são muito bons nisso. Tudo lá tem uma figurinha, uma musiquinha, um áudio explicativo (muitas vezes em inglês) ou qualquer outra coisa que faça com que você, mesmo que seja leso (sempre vai ter mais um lugar com a mesma informação, de formas diferentes, para pessoas distraídas como eu), deficiente visual ou auditivo ou estrangeiro (uma pessoa que não fale japonês), tenha uma ideia do que está fazendo.

De repente enquanto caminhávamos me deparei com o tipo de santuário que eu nem estava lembrado de procurar durante essa viagem, uma loja de instrumentos musicais. Na mesma hora fiquei louco com todos aqueles amplificadores e guitarras Fender. Tinha guitarra, violão e baixo pra todos os gostos e de todas as cores. Comprei algumas palhetas e uma coisa que eu nem pensei duas vezes, fiquei louco, eu tinha que comprar. Um mini amplificador (quem já assistiu o filme Escola do Rock sabe o que é, tem uma cena em que o cara bota um desses no cinto e sai tocando a guitarra dele) que já vem com distorção, é movido a bateria ou pode ter uma fonte plugada, é de um tamanho que cabe na mochila ou mesmo numa bolsa, além de outras características que eu fui descobrindo e vibrando enquanto lia o manual. Sem esquecer do mais importante, aquele bixinho pequenininho faz muito barulho pro seu tamanho, se preparem! Não vejo a hora de plugar minha guitarra naquilo.

Testando isso eu peguei uma guitarra e comecei a tocar Wasted Years do Iron Maiden (minha música tema). Quando fui pagar o balconista todo sorridente com aquele jeito típico e sotaque bem forte japonês disse “Iron Maiden né?”. Eu ri viu, como ri. Até hoje quando lembro do jeito que aquele japonês falou eu riu.

Continuamos a andar pelas ruas da pacata Osaka e fomos pegar o trem para Kyoto. O engraçado é que chegando lá as cadeiras do trem estavam rodando! Sim, elas giram pro lado da viagem, além disso dentro você tem um pedal que permite girar a cadeira manualmente e formar grupos de seis pessoas, bem legal, não?

Chegamos em Kyoto à noite e no caminho para acharmos o Khaosan (um tipo de albergue japonês) paramos num tipo de loja que parece ter uma em cada esquina de lá. Uma loja onde vendem jornais, revistas, mangás, animes, camisas e acessórios relacionados a isso, hentai (desenho pornô japonês), pornografia e brinquedinhos sexuais. Sim, no Japão esses brinquedinhos, cremes, camisinhas especiais, etc., que você precisa ir numa sex shop vendem do lado de maquiagem, revistas ou roupas, não importa, como se fossem só mais um artigo (o que na minha cabeça realmente são, acho muito idiota esses enxames e blah blah blah, todo mundo quer e todo mundo faz sexo, um grande ponto para os japoneses, não parecem ser tão hipócritas!). Sem falar que os mangás e hentais têm versão homossexual (tanto lésbico como gay) e vende lá, do lado dos mangás de outros gêneros (ação, comédia, suspense, etc.). A impressão que tive é que os japoneses tratam o assunto sexualidade e desejo sexual (apesar de serem uma “raça” nerd e tímida) com bastante tranquilidade e normalidade. Aproveitando para dizer também que nenhum japonês torceu o pescoço ou esbugalhou os olhos para Dani ou qualquer outra estrangeira que vimos nas ruas (diferente de muitos indianos que me fazem até sentir vergonha alheia). Acho que japonês é tudo come quieto!

Assim, não foi só uma loja que visitei, e era o seguinte, uns 2 andares tinham muita coisa, mas eram outros 2 andares, um só com hentai e outro só com pornografia, um andar inteirinho! Chegando num andar desse você se depara logo com a capa dos filmes com aquela japonesa peladona. Brinquedinhos, cremes, camisinhas, cuecas, calcinhas e fantasias para todos os gostos. E quem olhando? Um vovozão, uma Tiazona com a filha ou sobrinha (claro que provavelmente de maior ou quase), os caras todos comportados, olhando com ar de normalidade (como deve ser!). Entrei no clima e olhei tudo de boas também porque ninguém é de ferro, não é?

O albergue japonês, o Khaosan, era muito organizado (eu nem vou mais usar essa palavra, esse adjetivo já vem embutido na palavra “japonês”). Como sempre tudo com muita informação visual e precisa. Por exemplo, você espera o elevador e tem um cartaz do lado dizendo o que cada andar tem. Dentro do elevador, do lado de cada botão tem um balãozinho explicando mais uma vez o que aquele andar tem. Tudo com aquele ar bonitinho, infantil e amigável. O Japão é um lugar muito confortável para gente lesada igual a mim!

Aquele albergue tava era melhor que muito hotel, depois então que eu entrei no banheiro descobri que eu tinha ido parar no albergue da NASA! O vaso sanitário (diferente do vaso gaúcho que é frio, ou com muita sorte há um secador do lado pra dar um jeito no choque térmico da sua perna e o vaso) já vinha com aquecedor embutido no assento onde sua perna e bunda tocam. Ao contrário do que acontece no RS onde você quer é pular do vaso e desistir de fazer o que você precisa, nesse você luta pra querer se levantar. Depois que no lado do vaso ainda havia pelo menos uns 10 botões. E era aguinha pra limpar o bumbum, opção de intensidade do jato, controle da direção do jato, aguinha na frente para as mulheres, entre outras coisas. Tudo impecavelmente limpo e cheiroso, daria para morar ali.

Nessa primeira noite nos entupimos de bebidas e esses empacotados bonitinhos do Japão que crianças de 10 anos ou Leonardo ficam doidos pra experimentar. Eu experimentei bebidas pelo estilo da lata. A lata que tivesse me chamado mais atenção eu tava bebendo. O fato engraçado da noite foi a gueixa (não sei se ela era uma de verdade, mas a mulher estava vestida como uma). Eu e Dani fingimos que estávamos tirando uma foto com o espaço da porta da loja entre a gente. Enquanto isso Anderson tirou foto de cada passo que a mulher deu! Outro fato engraçado foi eu entrar num restaurante pra fazer xixi. Sentei no balcão, fingi que ia pedir algo, levantei pra ir no banheiro e saí fingindo falar ao celular. Engabelar eu aprendi na Índia! O garçom só fez comer poeira.

Batemos perna em Kyoto no outro dia. Lembro de querer muito visitar o Museu Internacional de Anime e Mangá de Kyoto. Mas ele estava fechado para manutenção até um dia depois de já termos partido para Tóquio. Fiquei triste, tava louco pra ir ver, vai ficar pra próxima! Lembro de ter começado a chover e nos abrigamos num Starbucks Coffee. Nada mais muito especial nesse dia aconteceu. A chuva nos atrapalhou e só no outro dia descobrimos que podíamos usar os guarda-chuvas do Khaosan de graça!

No outro dia visitamos um casarão japonês bem tradicional, era um prédio do tempo do shogunato (quem assistiu Samurai X ou se lembra de Japão nas aulas de história sabe o que é). Tiramos várias fotos da área externa, mas eu queria era poder tirar foto da área interna. Lá tinham várias salas interessantes, tudo do jeitinho da época dos samurais, algumas até com estátuas representando o que se passava naquela sala em particular. Um fato engraçado foi passar por crianças japonesas (um montão), todas começaram a sorrir pra mim, aí eu acenei dizendo “Konichiwaaaaa!” (“Boa tarde!!”), e elas responderam acenando e dizendo “Konichiwaaaaa!!”.

Antes de irmos para Tóquio, pausa para falar do atendimento Japonês. Toda loja que você for, não importa se é a Nike Store, o restaurante de Sushi ou a banquinha de frutas, todos os atendentes que te perceberem (se tiver 10, os 10 vão fazer) irão falar “Irashaimaseeeee” (como se fosse cantando, e significa algo como “bem-vindo”). E falam outras palavras de cumprimento, tudo num padrão rigoroso, todos os atendentes de todo tipo de loja dizem as mesmas palavras e agem da mesma forma. E não importa se você pagou uma bala com uma nota de 10mil yenes (R$212). Eles não questionam se você tem moedas(falo já delas) ou notas menores e te dão o troco em 2,7289 segundos e dizem “Arigatou gozaimashitaaaaaa” e outras palavras de cumprimento, te dão as moedas na sua mão e a nota fiscal, tudo com todo o cuidado do mundo. Agora vá no Brasil pagar um sorvete com uma nota de R$100? Pior, pague um rickshaw na Índia com uma nota de 500 rúpias? (nem tente com a de mil, melhor dizer que tá sem dinheiro, sério). Você conhecerá o que é simpatia e bom atendimento!

Agora falemos dos yenes. O Yene é uma moeda (LITERALMENTE). Tudo bem que tem a nota de mil, de 5 mil e de 10 mil, mas o que você vai gastar a maior parte do tempo são moedas de 1, 5, 10, 50, 100 e 500 principalmente as de 100 e 10. Eu já estava arrombando o zíper da minha carteira que já estava pesando 10 quilos. Então resolvi separar um bolso do casaco só pra colocar as moedas, minha vida mudou depois disso. É muito estranho comer e beber pagando com moedas. Você achando que tá pagando pouquinho e na verdade tá é pagando R$5, R$10, R$20 nessa brincadeira, só usando moedinha. Uma ,silada bino!

No próximo post iremos para Tóquio. Espero que tenham gostado de mais esse texto. Um abraço!

FIM DA PARTE II.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Viagem ao Japão, Parte I: Irashaimase!


Olá pessoal! Dessa vez eu fui longe. Esta postagem será a respeito da minha viagem ao Japão! Acabei realizando o sonho de muito nerd, inclusive o meu (eu ainda sou muito nerd, acreditem!). Devo dizer já que os quase 7 dias que passei não foram suficientes para mim, pois tenho certeza que há muito o que se ver no Japão, além de ficar comendo todas aquelas besteiras que vendem nas milhões de lojas de conveniência que tem em cada esquina, seja lá onde for. Mas geralmente viagens curtas como essa sempre nos deixam essa sensação. Mesmo assim também adianto que estou muito feliz de ter tido uma oportunidade tão especial de sentir o gostinho do Japão e mudar alguns conceitos, além de descobrir coisas que eu não fazia ideia sobre os japoneses.

Comecemos a viagem duas semanas antes, numa quarta-feira, com a minha batalha para tirar o visto. Eu moro em Powai e a embaixada japonesa em Mumbai fica em Nariman Point, lá embaixo, depois de Dadar (aquela estação central de Mumbai onde você troca da linha central para a linha oeste ou vice-versa). Eu sei que é longe! Acordei cedo para dar tempo de ir ao trabalho e chegando na embaixada descubro que não tenho os tickets de ida e volta para o Japão impressos nem a foto do tamanho certo, aquela velha foto 3x4 brasileira não servia. Vocês não fazem ideia de quantas vezes corri de lá pra cá, porque primeiro, a distância dos lugares, incluindo da estação mais próxima até a embaixada é aquele tipo de distância que é curta demais que o rickshaw ou táxi não vão querer te levar, mas pra andar é um bocadinho, ou seja, ande a pé, e segundo que eu não estava conseguindo achar um lugar pra tirar aquela foto 2 por 2 polegadas, até que num subsolo de um prédio lá eu acabei encontrando, faltando menos de uma hora para a embaixada fechar (ela abre para processo do visto de 9 e meia da manhã até uma da tarde só). Então imaginem que Leonardo correu viu.

Chegando na embaixada com tudo em mãos eu ainda tive que escrever na mão uma cartinha dizendo porque eu queria o visto. Então comecei com aquele blah blah blah em inglês, oi eu sou Leonardo Panta Leão, intercambista do ACE program blah blah blah da TATA Consultancy Services, kindly provide me a short term japanese visa with purpose of visiting Osaka, Kyoto and Tokyo... enfim, uns 2 parágrafos. Pra ainda a mulher dizer que faltavam os tickets de volta do Japão. Pois é, na agonia do tempo curto que tinha eu nem verifiquei o que eu tinha imprimido. Então eu comecei a gaguejar pra mulher, sei lá, eu já tava era ficando tonto com tanta coisa atrapalhando e dando errado consecutivamente, até que a atendente teve a feliz ideia de que eu enviasse ainda naquele dia por fax a passagem de volta do Japão. Agradeci bastante a ela e fui caminhando um pouco mais calmo, sabendo que a coisa estava enfim caminhando para dar certo. Eu tava tocindo muito e cansado, praticamente doente, então pensei, “Por que não fazer o que deve ser feito com calma? Já tô na merda mesmo, se eu correr agora chego no escritório umas 3 da tarde...”, mandei mensagem pra um amigo pedindo pra avisar que eu tava doente e gastei um dos sick leaves (aqui na Índia você tem direito a 15 dias de doente, mas você pode usá-los até se o dedão do pé estiver doendo, eles ficam usando isso um aqui outro ali, tem uma menina no meu escritório que é viciada nisso).

Eu entrei num McDonalds que tinha perto e quando sento começa a tocar uma musiquinha japonesa “Ai ai ai, where’s my Samurai?” (uma que tem no Dance Dance Revolution, Little Butterfly, algo assim). Eu olhei pra caixinha de som e disse “Vá se fuder, doido!”. Parecia que aquilo tava tocando só de sacanagem. Bom, voltei pra Powai e lá achei uma lan house pra imprimir e mandar o fax. Quando voltei pra casa dormi o resto da tarde e um pedaço da noite, é que eu não entrei em detalhes e já gastei uma folha, imaginem o quanto eu corri e cansei! Esse dia foi uma novela pra tirar esse visto.

Também foi uma novela achar onde comprar o J-Rail pass na sexta-feira já com o visto em mãos. Os locais onde o google maps indicava ou não existiam ou não vendiam esse ticket que permite viajar por uma linha japonesa que vai de uma cidade a outra e que pode ser usado em alguns trechos locais também. Caríssimo, mas vale mais a pena que comprar as passagens lá no Japão, até porque nem se vende lá, é somente para turistas ou residentes fora do Japão. Pelo menos dessa vez deu tempo de chegar no escritório.

Aliviado e com tudo pronto, pensei que ia poder planejar calmamente e consultar as coisas que iria ver no Japão. Tudo bem que foi muito desleixo da minha parte deixar para a última semana antes da viagem, ainda mais para o Japão que era um sonho antigo meu. Só que na terça a noite dessa semana antes da viagem eu começo a tossir descontroladamente, nariz escorrendo e quando tiro a camisa no banheiro, tô todo empolado! Peguei uma alergia braba! Como assim? Faltando tão pouco pra ir ao Japão!

No outro dia fui no hospital cedinho. Quando chego o atendente queria me mandar pro dermatologista, eu já dei logo uma bronca, porque como assim me mandar pra um dermatologista se eu nem sabia o que eu tinha, e ainda mais, nem eu sou médico, muito menos ele, o atendente, não que eu menospreze o atendente, mas por favor, não é assim que as coisas funcionam! Tem umas coisas dos indianos que eu não sei não viu! A parte boa é que os remédios foram baratinhos! Gastei 280 rúpias (menos de R$10), eu acho que só o Allegra custaria uns R$30 no Brasil. Nisso Leonardo voltou a gostar da Índia rapidão!

Eu fiquei meio triste por ter ficado doente e estava com muito medo de ter que cancelar a viagem, mas eu já tava tão próximo, e desistir não é muito minha praia. Então me dediquei a melhorar, passei 3 dias seguidos em casa, só comia e dormia e tomei todo o cuidado do mundo pra tomar os remédios no horário certinho, porque lá em Aracaju quando minha mãe inventa de deixar eu tomar os remédios sozinho eu acabo esquecendo ou pulando a dose de algum. Mas dessa vez não, sem Mamis por perto a responsabilidade foi chamada. Claro que eu senti uma falta absurda dela nessa hora pra fazer uns cafunés no carente que eu sou quando fico doente. Quem já me viu doente conhece a peça.

Na sexta, com aquele cuidado todo eu consegui resultado, já estava bom para ir trabalhar, claro que eu não estava o senhor disposição, mas já era outra história. Por outro lado eu não tinha verificado uma linha sobre a viagem do Japão, me dediquei só a melhorar. Tudo bem que é uma desculpa esfarrapada, mas imaginem você não melhorar e se frustrar com aqueles planos todos. Resolvi ligar o modo “deixa levar”, que aliás eu ligo esse modo quase que o tempo todo.

Enfim a viagem. Vamos começar com Chennai. Como o meu voo era domingo e eu cheguei lá sábado, eu poderia curtir um dia em Chennai. Quando cheguei lá já fui falando com os africanos do apartamento do Anderson, o David e o Frank e fiz o David morrer de rir do jeito que eu perguntei “where’s the crazy guy??” (onde está o cara doido??) apontando pro quarto do norte-americano Douglas.

Durante a noite eu fui naquele mesmo hotel que eu tinha ido no primeiro dia de Chennai naquela semana do natal e ano novo. Encontrei muita gente da gangue de Chennai. Eu gosto muito deles, têm um astral muito bom, e segundo eles eu já me tornei “o visitante” de Chennai. Me segurei com todas as forças pra não cair na farra com eles. Quase não resisto à tentação, mas umas 11 da noite eu já estava dormindo na casa do Anderson. Tá vendo aí? Eu sou responsável rapá!

No domingo fui na casa de Dani para fazer a torta de limão, que já é a paixão das meninas da casa dela, e testar cozinhar uma Muqueca que estávamos planejando para o japonês que nos hospedaria em Tóquio, no Japão. Eu sei que já estou craque em me infiltrar no prédio de Dani. Vi um caminhão pipa querendo entrar, e o que fiz? Vi o guardinha vindo e fiz sinal de “pode deixar!”. Abri o portão pro caminhão e fui na cara de pau para o apartamento. Lá fiz a torta de limão e ajudei um pouco com a muqueca e com o arroz. Dani ainda tinha um pacote lacrado de farofa de carne seca do Brasil, um acompanhamento muito bom para a muqueca! Almoçamos com as romenas Angela, Andreea e o romeno novo de Chennai, o Sorin. Só dá Romênia na casa de Dani! Isso porque ainda faltou a Simona que tinha saído.

Depois de um almoço muito bom voltei pra casa de Anderson pra tomar um banho e partirmos pro aeroporto. Nesse de Chennai já fui mais que o Santa Maria lá de Aracaju! Enfim, partimos para a Malásia onde faríamos a troca de avião para o Japão. Eu sei que Indiano é barulhento, se você quisesse dormir era impossível. Tinha uma tia que não fechava a matraca com aquela língua alienígena que é Tamil (essa língua falada só não é mais estranha que sua forma escrita, acreditem!). Nós nordestinos temos uma palavra que descreve perfeitamente o comportamento daquele povo indiano no avião internacional... Tabaréu. Perfeito, diz tudo.

Lá na Malásia reencontrei os ringgits (a moeda local) e gastei uma moeda de 10 centavos que já morava na minha carteira há meses para pagar meu McDonalds de CARNE BOVINA. Comi rezando, huuuummmmm... Depois de horas morgando naquele aeroporto, finalmente quando o sol nasceu pegamos o avião para o Japão.

Outra história, da mesma forma que 90% do avião partindo de Chennai era indiano, 90% desse avião era japonês. Um silêncio total, muita calma pra entrar e sair do avião, porque eu não sei que diabos indiano pensa que quem chega por último é a mulher do padre, quando o avião pousa, o sinal de apertar o sinto nem apagou ainda, já tem gente em pé tirando a bagagem, se amontoando, não dando licença pra você. Eu já esculhambo com os indianos não é? Mas tadinhos, eles não fazem por maldade, é que a disciplina básica e certas coisas eles não têm, mas eu ainda gosto muito deles de alguma forma.

Chegando no Japão já me impressionei da janela do avião. Uma paisagem montanhosa, alguns lugares com neve no topo, até o céu tinha um azul diferente. Pousamos no aeroporto de Kansai em Osaka, aquele famoso por ter sido construído inteiramente sobre a água. Quando você sai do avião já tem aquilo que vai te levar em praticamente todos os lugares que você quiser no Japão, um trem.

Todo mundo muito educado, na mesma hora que o trem lotava, os que ficavam paravam e esperavam o próximo. Ainda vou falar um bocado do senso de organização dos japoneses. Bom, no aeroporto validamos e pegamos o nosso cartão do JR pass e sacamos alguns Yenes (nunca pensei que tão cedo eu fosse usar esse dinheiro que eu gastava comprando pokebolas quando tinha 11 anos jogando Pokémon Blue, e parando pra pensar, eram 250 yenes uma pokebola não? R$5,25... até que não eram tão caras, porque um McDonalds completo custa mais que isso, eita Japãozinho caro viu!). Falando nisso, pelo menos os japoneses realmente amam a batatinha do McDonalds, vem quase um pacote de fandangos só de batatinha (tá, tô exagerando, mas vem muito!).

Saindo do aeroporto quentinho, um frio da peste! Frio assim só senti na minha viagem que fiz ao Rio Grande do Sul no inverno brasileiro de 2009. Aquela velha fumacinha que Leonardo fica igual besta soprando só pra ver, sem nunca enjoar de fazer isso. A primeira coisa que fizemos foi pegar um trem de Kansai para Osaka. Já estava anoitecendo.

Chegando lá tivemos certa dificuldade de achar o local onde queríamos chegar. Meu primeiro choque cultural no Japão foi descobrir que japonês não fala inglês, mas assim, não fala inglês mesmo! Nem os números! Talvez porque eles não sintam a necessidade de estudar outra língua por serem tão independentes dos outros países ou talvez por questão cultural mesmo. Eu particularmente acho isso errado, caso seja uma questão cultural mesmo. Eu sei que o inglês é a língua oficial dos dois países (EUA e Inglaterra) mais prepotentes e que se acham a última bolacha do pacote (desculpa, mas é preconceito e conceito misturado aqui, pelo que já vi e ouvi), mas fazer o quê? O inglês pra mim é o térreo da torre de Babel, basta você subir alguns degraus, a lógica não é difícil de aprender, a língua usa o alfabeto mais simples que já vi, nem acento tem, entre outras coisas. Eu não atribuo 100% à “dominação” norte americana como consequência do inglês ser a língua número um no intercâmbio entre as nações. Graças a essa língua a gente pode cair no mundo não é? Pô japoneses, vamos aprender inglês aí! Enquanto isso mais da metade dos indianos falam inglês ou ao menos entendem o básico, irônico, não? Tá, foram colonizados pela tal Inglaterra, mas foi um presentinho bom que eles deixaram viu! Indiano com seu inglês de sotaque estranho agora tem um em cada canto do planeta! Ponto para os indianos!

A estadia do primeiro dia em Osaka foi gratuita, graças a Dani (ainda tenho muito o que agradecer a ela pelo que ela conseguiu para nós nessa viagem). Ela contatou um casal que tem um bar em Osaka que costuma hospedar aventureiros estrangeiros em troca de 3h de trabalho no bar por cada dia de estadia. A mulher não fala muito bem inglês, mas o marido tem um bom nível. Como era segunda-feira obviamente o movimento no bar era mínimo, havia apenas um cliente! Lavei uns copos, cortei uns papéis e depois fui bater papo, eu, o marido da dona do bar e o cliente. Foi muito engraçado. O marido foi tipo um intérprete, mas às vezes, com certas palavras que aprendi nos animes (desenhos japoneses) eu conseguia entender o cara perfeitamente ou ter uma ideia do que ele estava falando (tá, deixa eu ser realista, muitas vezes eu entendia era porra nenhuma, eu não falo japonês!).

Eu falei coisas do Brasil e dos animes que assisti. Como era carnaval lembro de eles terem citado que tinha um tipo de carnaval brasileiro na cidade de Kobe. Também lembro de um momento engraçado em que eu falei que sabia dizer “dakishimete!” que significa “me dê um abraço!”, aí esse cliente que já era uma figura muito engraçada falou “blah blah blah otoko!”, eu sei que “otoko” significa homem e entendi perfeitamente que ele falou “eu não gosto de homem!”. Eu me acabei de rir e disse que não foi o que eu quis dizer. Mas foi muito engraçado a reação dele. Eu sei que ele tava tirando onda.

Durante esse tempo também chegou um alemão que já tinha trabalhado no bar na mesma condição, foi visitar outras partes do Japão e voltou para passar mais uns dias em Osaka. Claro que Leonardo não perdeu a oportunidade de falar um pouco de alemão com ele. Me apresentei, dei boa noite, um bocado de coisinhas que ainda lembro do alemão que estudei ano passado e no começo desse ano. Todo poliglota esse Leonardo não é? (Ah que nada, eu nem falo espanhol velho, que vergonha! Enfim!)

Depois disso, nem deve ter durado as 3 horas, a gente foi para a casa deles. Muito bonitinha e confortável, era o que posso pensar como típica casa japonesa. Tinha 2 andares acima do térreo. Tudo era apertadinho, mas extremamente bem aproveitado. No nosso quarto tinha uma TV do tamanho da parede. Cada coisa tinha seu lugar e instruções bem precisas do que continha ou o que era pra ser feito com cada coisa. No próximo post irei discutir um pouco o que eu acho ser o segredo da organização dos japoneses.

Bom, parando um pouco a aventura Japão e encerrando o primeiro dia em Osaka. Eu devo dizer que tenho me apaixonado por escrever. Tenho tomado gosto pela coisa e espero estar fazendo de uma forma que divirtam vocês e que passe tanto a ideia do que eu senti ou vi, tanto quanto minha percepção pessoal das coisas que tenho vivenciado. Para os leitores preguiçosos de plantão desta vez estou dividindo as aventuras em partes. Assim posso escrever com mais detalhes. Eu gosto de ficar descrevendo da forma como vejo as coisas e às vezes fazer esse tipo de reflexão sobre o que eu vivenciei, tenho certeza que alguém que leia e se interesse terá tempo suficiente para pensar em argumentos que me apoiem ou que me passem uma visão diferente, que será sempre bem-vinda. Não importa sua idade, sexo ou se você jamais viajou mais que 200 quilômetros de casa. O que importará serão suas ideias!

Um grande abraço. E não se preocupem, vou continuar escrevendo o mais constante que puder até terminar a experiência Japão. Essa precisar ser rica em detalhes!

FIM DA PARTE I.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Pão francês


Olá pessoal! Nessa postagem falarei sobre mais uma incrível experiência em Chennai. Dessa vez estive lá para participar da ACE Global Village 2012, que é um evento onde os intercambistas do ACE program de todas as cidades da Índia se reúnem para uma espécie de intercâmbio cultural. Esse evento tem como finalidade apresentar aos indianos a diversidade cultural da TCS que tem escritórios no mundo inteiro.

O plano foi nos dois primeiros dias recebermos palestras e aquelas atividades (chatíssimas) de muito blah blah blah onde você espera pacientemente pelo coffee break ou almoço, onde você finalmente come e, o mais importante, conversa com as outras pessoas e faz de fato um intercâmbio cultural. No terceiro dia o objetivo é apresentarmos aspectos dos diversos países, continentes e etnias. Além de cozinharmos e oferecermos para degustação aos indianos alguma comida típica de cada um dos 30 países representados pelos 70 intercambistas do ACE program.

Começando pelo primeiro dia, tive que acordar bem cedo para pegar o avião para Chennai. Fui acompanhado da minha colega de apartamento, a colombiana Natália. O voo era às 6 da manhã, imaginem o sacrifício que não foi acordar antes das 4 para não correr riscos. Eu sei que de um dia pro outro eu mal dormi 2 horas seguidas.

Ao chegar no aeroporto me juntei aos outros ACErs de Mumbai que estavam pegando o mesmo voo. A viagem foi tranquila e acabamos chegando bem cedo em Chennai, por volta de umas 8 da manhã. No aeroporto nos juntamos a outros ACErs vindo de outras cidades como Delhi, Baroda e Kolkata. De brasileiros ali tínhamos a Amanda do Espírito Santo, o Bruno de Minas Gerais, o Igor do Rio de Janeiro e a Laura de São Paulo (mas eu só fui saber que ela era brasileira um tempo depois, sabe como é, brasileiro não tem um rosto padrão). Se bem que o Bruno quando chegou de Kolkata eu já vi logo que era brasileiro pelo jeito que ele chegou já num sorrisão pro povo, e o jeito de falar que não tinha como não ser brasileiro.

Fomos recepcionados pelo meu velho amigo Anderson e o Eliabe de São Paulo, que é de Mumbai, mas já tinha chegado antes, pois ele fazia parte do comitê da organização do evento. Pegamos um ônibus fretado diretamente para Siruseri, o maior escritório da TATA não só na Índia, mas na Ásia.

No ônibus fui acompanhado do Bruno e do Igor. Fiz amizade rapidamente com os dois, principalmente o Bruno, mineiro e cheio das armadas igual um dos meus melhores amigos que também é de Minas. Ele acabou virando meu parceiro de birita na viagem, do mesmo jeito que esse meu amigo é lá em Aracaju. No ônibus também descobri que a Laura era brasileira. Ela veio à Índia após ter passado 7 meses na França. Como os brasileiros totalizavam de longe a maior delegação (12 no total), decidiram colocar ela como representante da França. Mais para frente eu explico como eu fui parar no estande dela para ajudá-la na distribuição do prato dela para milhares de indianos canibais famintos.

O complexo de Siruseri é de fato impressionante! Parece aquelas construções imponentes do novo mundo árabe. Tudo muito espelhado e moderno. Eu soube que esse escritório ganhou um prêmio de arquitetura em 2011, não deve ter sido à toa. Lá as salas de conferência são muito modernas e confortáveis. As cantinas têm todo tipo de opção, parece que você está num shopping center. Se você quer salada, tem um quiosque só pra isso, se você quer comida indiana no bandejão, tem. Se você quer um suco de fruta poderoso, tem de tudo que é fruta. Se você cansou e quer um hambúrguer com fritas e coca-cola, também tem. Tudo nas diversas cantinas espalhadas pelos andares do complexo.

Depois de muito esperar para almoçar, chegamos na cantina para termos o almoço. Lá encontrei alguns dos membros da velha gangue de Chennai: O Fabian da Colômbia, a brasileira Pérola de Goiás, a Simona da Romênia, entre outros. Mas almocei com a Luísa da Venezuela, a Cristina da Costa Rica e o Juan de Porto Rico, o trio de Delhi. Foi bem legal conhecer eles. Quem tinha o sotaque mais diferente era a Luísa. No começo eu achei estranho, achei que ela tava fingindo, depois percebi que ela falava espanhol do mesmo jeito, e depois, sério, fiquei fã, muito engraçadinho. O sotaque venezuelano é mais cantado que o meu sotaque sergipano. Sem contar que a Luísa é doida pelo Brasil, quando ela tentava falar português é que era engraçado, porque estranhamente o sotaque dela ajudava a soar até bem em português a pronuncia do que ela tentava dizer.

Depois do almoço seções chatas, slides, atividades, etc. Eu sentava com o Bruno, o Fabrício do Peru e Marcos do México pra ficar fazendo e falando besteira. Também tinha um cara da Sérvia por perto, o Marko, o qual eu rapidamente apelidei de Petkovic, óbvio!

Lembro também de ir no banheiro e de repente um estrangeiro dizer “Oi!”, e eu “Opa! Brasileiro?”, ele “Não” (sem ironia, e o sotaque era muito bom), e eu “Oxente e por que o português??”, ai ele: “É porque eu sou espanhol e minha mãe é portuguesa”. Pra mim foi uma sensação engraçada, porque era um gringo falando português muito bem, geralmente a gente não usa nosso português para ficar batendo papo com gringos, não é? Esse era o Júlio da Espanha.

No fim do primeiro dia pegamos o ônibus fretado para a TQ (transit quarters, o hotel). Na volta vim com o Bruno falando muita besteira, rindo e combinando a biritagem que estava por vir. Paramos numa wine shop para comprarmos o mé. Não sei porque cargas d’água o ônibus não nos levou até a TQ, e sim nos deixou na avenida para andarmos milhares de quilômetros com todas aquelas bagagens nas estradinhas de barro com poças, muito comum em Chennai. Pra falar a verdade Chennai parece muito aquelas cidadezinhas de beira de praia, onde asfalto é só nas avenidas, o restante é barro. Só sei que quando já estávamos todos de saco cheio com aquilo, sem saber onde diabos ficava a TQ e todos calados e concentrados nos buracos da estrada de barro, o Karim do Egito soltou a máxima “WHERE IS THE FUCKING TQ??”. Algo do tipo “CADÊ A PORRA DA TQ”. Eu tô rindo disso até hoje quando eu lembro. O jeito ignorante que ele falou foi muito engraçado, eu fico imitando toda hora, aquele “FUCKING” foi da alma.

No segundo dia foi o maior sacrifício acordar cedo. Mas os baldes de água fria no banheiro me ajudaram a acordar. Eu mal tinha dormido 2 horas seguidas. Mas tudo bem, eu sou de ferro! (É nada! Vocês tinham que ver meu estado no domingo). Na cantina da TQ já fiz logo amizade com o dono falando o pouquinho de Tamil (a lingual local) que eu sei. Eu sempre me divirto um bocado com isso. Eu sei perguntar “Tamil terima?” (“Você sabe Tamil?”) ou “Hindi pata hai?” (“Você sabe Hindi?”).

Nesse dia durante a tarde combinamos que teríamos uma apresentação de dança no próximo dia para algumas regiões do mundo. As divisões foram: América do Norte, representado pelos americanos Douglas da Carolina do Sul, Christina, a nordestina dos EUA, Lydia , a americana meio chinesa, a texana Maricela (por isso esse nome meio mexicano) e o mexicano que ficou avulso na dança, o Marcos; Europa, representado por pelo menos umas mais de 15 pessoas, dentre elas o Petkovic, digo, o Marko da Sérvia, a Magdalena da Polônia, as meninas da Romênia Simona, Angela, Alina e Monica, a Vanja (lê-se Vania) da Eslovênia, o Júlio da Espanha, além de pessoas que não lembro os nomes agora, mas sei que tinha gente da Ucrânia, Dinamarca e da Rússia também, uma mistureba europeia; África, representado por mais umas 20 pessoas ou mais, dentre elas o Chinedu e mais algumas pessoas da Nigéria, aquele meu antigo problema, digo, ex-colega de apartamento Tiburce de Benin, o Anthony (Tonito), Frank e mais algumas pessoas do Kenia, David, outro David e Mukasa da Uganda, Karim do Egito, Fatma e mais outro rapaz da Tunísia, além de tantos outros africanos que eu não consegui memorizar os nomes, mas que somavam pelo menos uns 8 ou mais países diferentes; Ásia, representada apenas pela chinesa de Hong Kong, a Chanchalai, mais conhecida como Jenifa (todo chines pode escolher um nome internacional); e a maior delegação, com mais da metade dos 70 intercambistas… Latin Americaaaaa!! (América Latina), representados pelos brasileiros Anderson, a gaúcha Bibiana, Bruno, Igor, Eliabe, as capixabas Nádia e Amanda, Pérola e Emeline, a brasileira Laura não conta porque representou a França e dançou com os europeus, e a Daniela não participou da conferência, pois estava viajando, além deles um tal de Leonardo também, o Percy da Bolívia, os colombianos Andres, Fabian, Natalia, John, Wilman e Andrea, a Cristina da Costa Rica, o Juan de Porto Rico e a Luisa da Venezuela, os peruanos Fabrício, Elsa e um rapaz que chegou havia só alguns dias (a mesma situação que eu e Anderson na ACE Conference do ano passado), além do mexicano Marcos que dessa vez não ficou avulso na dança.

Esse último parágrafo enorme com todos esses nomes foi só pra vocês terem uma ideia de todo o tipo de gente de todos os cantos do mundo que estavam participando dessa conferência. Aqui vai um fato interessante que aconteceu. Os africanos ficaram chateados porque ficou combinado que os árabes do Egito e da Tunísia, além de participarem da dança africana, teriam um tempo exclusivo para fazer uma apresentação árabe com a finalidade de mostrar que a TCS também está presente no oriente médio e no mundo árabe. Eu tenho certeza que a ideia foi do idiota do Tiburce, pensem num sujeito que gosta de se amostrar! Eu sei que passamos uns 10 minutos num impasse porque algum africano ainda argumentou “ah, se esses 2 países vão ter uma apresentação só pra eles, então vai ter que ter uma apresentação pra cada país africano”. Nisso o Tiburce quando viu que não ia dar em nada, levantou e saiu. Eu acho é pouco que ele acabou ficando no vácuo, porque ninguém deu importância e acabou que os africanos cederam. Ninguém me tira que a ideia dessa questão que aconteceu não partiu desse babaca do Tiburce (Se ele usa google tradutor pra ler meu blog ou algum amigo dele, dane-se).

A questão serviu pra mostrar que infelizmente há um pouco de baixa auto-estima por parte dos negros africanos. Eu acho que infelizmente eles pagam injustamente por conta de alguns deles que fazem muita besteira. A exemplo mesmo do Tiburce, pra cada africano safado e enrolado igual a ele existem centenas de africanos boas pessoas e honestas, eu tive contato em Chennai na minha viagem anterior, por exemplo, com africanos realmente muito inteligentes e capacitados como o David da Uganda e o Frank do Quênia que moram na casa do Anderson. Eu e o David terminamos empatados no xadrez e além disso eu lembro que ele tinha acabado de tirar uma certificação de alto nível em Java. Já o Frank deu um show em mim no xadrez, não ganhei nenhuma, e ele tinha altas manobras muito inteligentes.

Voltando à conferência, agora vocês vão ver que América Latina é América Latina. Depois da discussão toda e da questão africana fomos para o coffee break. Decidimos que a música da gente iria ser Kuduro (aquela que começa em espanhol e depois é cantada em português). Eu lembro que eu tinha dado a ideia de dançarmos La Bamba, já que era a mais conhecida na América Latina, mas acho que Kuduro foi melhor ideia porque ela é famosa aqui também, todo club em Mumbai toca essa música. Quando voltamos do coffee break, todas as salas disponíveis no andar já estavam ocupadas com o pessoal da Europa, América do Norte e África. Achamos um espaço vazio entre as duas salas… então fizemos lá mesmo, com latino americano não tem tempo ruim!

Combinamos os passos e ficou bem legal. Todo mundo muito animado, e mesmo sendo a maior delegação, aquele espaço curtinho nos serviu muito bem. Me fez pensar mesmo que nós da América latina compartilhamos algo na nossa cultura que só tem nesse lado de cá (digo, daí!) do planeta. É uma facilidade pra se divertir e sorrir com tão pouco.

Nesse dia ficou estritamente proibido biritar ou farrear, pois no outro dia seria o dia mais importante e teríamos que estar em Siruseri o mais cedo possível. Mesmo dormindo relativamente cedo eu queria ter dormido muito mais. Chegamos em Siruseri e já partimos para a cozinha. Eu que fazia parte da equipe de cozinha já fui ajudando logo onde eu podia. Comecei descascando batatas com as romenas, pra salada delas. Depois fui bater a massa da panqueca eslovena da Vanja (lê-se Vania, viu!), aí fui assar as panquecas. Como a Vanja era a chefe da equipe de cozinha ela nem tocou nas panquecas, pois tinha que ficar coordenando tudo. Foi quando eu achei engraçado, pois quem se juntou a mim foi o Fabrício e um auxiliar indiano, eu falei: “olhe pra nós, um brasileiro, um peruano e um indiano assando panqueca eslovena, só no Global Village mesmo!”. A panqueca era bem gostosinha e doce. Eu brincava dizendo que estava cozinhando chapatti esloveno (chapatti é um tipo de panqueca comum aqui na Índia, não tem gosto de nada e é usada pra comer todo tipo de comida Indiana).

Também lembro de cortar plantanos (algo que nunca vi no Brasil e é intrigante, você jura que é uma banana e quando abre tem consistência e aparência de mandioca, ou macaxeira no bom sergipanês, ou aipim na Bahia, enfim, vocês entenderam!) para uma receita do Porto Rico. Foi quando cortei meu dedo e comecei a sangrar loucamente. Lavei e manchei o detergente todo de vermelho, mas meu dedo está OK, relaxe aí Mamis!

Por fim eu descasquei uns pepinos para uma receita da Turquia e cortei uns cubos de queijo para um macarrão peruano. Pensava eu que iria poder provar cada uma dessas comidas, que engano. Depois de averiguar um pouco como tava indo alguns outros pratos (tá, eu sei que eu sou um desastre ambulante, mas eu até que levo jeito pra cozinha, sério!) fui ajudar a Nádia e o Igor no estande brasileiro. Modéstia parte, ficou o mais bem decorado de todos! Mas também, com tanto brasileiro! Massa foi a Jenifa da China que fez algo do mesmo nível (ou até melhor) completamente sozinha, esse povo do olho puxado, dá até raiva! (brincando! Mas vão ser eficiente pra lá viu!).

Bom, depois de muito blah blah blah, fala disso, daquilo do ACE program fomos para os estandes. O brasileiro Eliabe é que apresentou, ele fez muito bem, ele é desse povo bem animado e descontraído, agitou legal.

Nos estandes a ideia era calmamente apresentar nossos países e oferecermos uma amostra de alguma comida típica daquele país. Mas quando percebemos, começamos a ver a maré de indianos encher rapidamente. Nisso eu lembrei de um comentário de algum indiano aleatório quando eu estava caminhando por Siruseri “Ah! The food festival!” (“Ah o festival de comida!”), eu já estava sentindo que isso ia dar merda. Com aquela multidão de indianos se formando rapidamente uma das meninas falou: “A Laura tá sozinha lá no estande da França, vai algum de vocês meninos ajudar ela!”. Eu me ofereci, mal sabia eu que eu seria o salvador da pátria… francesa!

Eu sei que a menina havia cozinhado um tipo de sopa de cebola. Quando eu cheguei lá só deu tempo de dizer: “Oi Laura, vim ajudar!”. Começou a bagaceira, de repente pensei que estava no meio dos trens de Mumbai. Um empurra empurra, eu sei que eu peguei as baguetes e comecei a oferecer os pedacinhos e a sopa pra molhar o pão. Comecei a fazer aquilo freneticamente, me senti Jesus distribuindo o pão para a multidão faminta. A gente ficou besta, mal dava pra acreditar que aquele povo era funcionário da Tata igual a gente. Muito tumulto, e eu ficava pedindo calma. Mas como Leonardo é leso e o mundo pode estar desabando que ainda assim eu não deixo de leseira, um dos indianos finalmente perguntou algo da França, ele perguntou de onde eu era na França, eu rapidamente perguntei pra Laura “Rápido, uma cidade na França!”, ela “Ora, Paris!”, eu “Não, eu quero outra, uma qualquer!”, ai ela me disse uma que eu não lembro agora, mas eu imitei direitinho pro indiano. É claro que no meio daquilo tudo eu queria dar uma de francês mesmo! “Já que estamos na merda, vamos se melar!”.

Pois então, o brasileiro, nordestino cabra da peste, hiper patriota e regionalista, foi salvar o dia logo no estande da França. Eu ainda não engulo o Zidane e o Henry, mas fazer o quê? Acontece! (brincando mais uma vez, claro que um dia quero tomar um cafezinho olhando para a torre Eiffel).

Depois eu soube que tinham cerca de 10 mil indianos assistindo o evento. Olha, eu acho muito bonito o senso de união e divisão dos indianos… Mas o senso de organização, respeito e cavalheirismo, ah, os indianos ainda têm que aprender um bocado! Eles não estavam nem aí se tinha mulher na frente, se tinha outra pessoa na fila, tiveram caras que nem molhar o pão na sopa fizeram, só pegou o pedaço do pão e pronto, tudo porque era “comida de graça”. Além de serem muito pedreiros em relação a mulher, um deles olhou pra Laura “E mulher lá é bom, não?”, mas de um jeito tão pedreiro, que eu senti até vergonha alheia.

Outra coisa que aconteceu é que depois de meia hora distribuindo pão e sopa loucamente alguém pergunta “É vegetariano??”, eu pensava que era, a Laura “Não, tem caldo de galinha”. Eu parei, pensei um segundo, porque eu sei que pelo menos uns 60% dos indianos são vegetarianos (ou mais), mas aí pensei “Foda-se!”. A situação tava longe de se ter peninha de um vegetariano que comeu sopa com caldo de galinha.

Depois do sufoco, um pouco vergonhoso por parte da Índia (mas calma indianos, eu ainda gosto muito de vocês!), fomos para as apresentações de dança. Primeiro a América do Norte que veio com um tipo de country típico dos EUA. Depois veio a América Latina com o Kuduro, e foi um sucesso! Ficou muito massa, e agitamos bastante. Arrancamos altos gritos na parte onde dançamos em casais. Depois disso tivemos a Europa, bem fria, dançaram o tema do filme Zorba, o Grego, era bonitinho, mas meio sem graça. Depois disso os africanos arrepiaram, a dança deles foi realmente muito boa, cheio de coreografias bem legais. Depois disso o momento asiático com a Jenifa, primeiro ela começou cantando algo em chinês (e muito bem por sinal), e depois todos nós fomos para o palco, e ela nos guiou num tipo de grito de guerra de Hong Kong. Eu só lembro que tinha um pedaço que ela parecia dizer “Saiu! Angu! Sou titia, sou titia!!”, muito engraçado. Pra finalizar tivemos a Fatma e o outro rapaz lá da Tunísia e o Karim do Egito numa dança árabe que ficou muito legal. A Fatma salvou o barco porque o Karim e o outro cara eram muito atrapalhados, o que fez tudo ficar realmente engraçado. No fim das contas foi um sucesso todas as apresentações.

O ápice do evento merece um parágrafo à parte. Fomos pro palco e dançamos a música que é a sensação do momento aqui na Índia, procurem no youtube “Kolaweri-di”. É uma música cantada de um jeito um tanto quanto preguiçoso, mas cola no seu ouvido que é uma beleza! A Simona da Romênia que inventou a maioria dos passos. Ficou muito bom, e arrancou altos gritos da plateia, os indianos foram a loucura, sério, porque essa música é realmente o hit do momento. E tem um momento da dança que imitamos um motorista de rickshaw, nessa hora os indianos mandaram um grito, parecia que estávamos num show de rock. Foi tão bom que pediram bis, e a gente fez a dança outra vez!


Depois de tudo isso voltamos para a TQ, cansadíssimos, mas com o espírito de missão cumprida. Biritamos violentamente pra comemorar. No outro dia pela manhã, morrendo, pegamos o ônibus para Pondicherry. Dessa vez tudo mais arrumado, não aquele cenário pós-apocalíptico que estava no réveillon por causa do ciclone. Eu e a brasileira Pérola queríamos porque queríamos comer o mesmo bife macio e suculento que a gente comia direto quando viemos da outra vez. Partimos eu, ela, o Bruno, as americanas Lydia e Christina, e o papito John. Não estávamos achando o lugar e a Christina disse “que tal a gente tentar esse que tá no guia?”, pois a ignoramos e ficamos igual barata tonta pra descobrir meia hora depois que o restaurante do guia da Christina era justamente o que queríamos (na caaaaraaaaaaaa!)

O bife tava ótimo, não tínhamos comido desde o café da manhã e já eram quase 6 da tarde, porque tínhamos parado em Mahabalipuram (patrimônio da Unesco), uma praia antes de Pondicherry onde tem ótimos templos e locais esculpidos em pedra. O lugar é bonito mesmo. Lembro que tinha uma pedra gigante que parecia ser fixada na rocha por mágica, porque ela era muito imensa e parecia que podia rolar dali a qualquer momento.

Durante a noite tomamos umas cervejinhas e fizemos muito barulho no hotel. Aqui eu tenho uma história muito engraçada pra contar. De repente eu estou andando com uma romena, a Alina e a chinesa Jenifa, eu vi gente sendo expulsa do terraço, e pensei, porque não? Botei na cabeça que eu queria era ir pro terraço, arrastei as duas pro elevador, aí aparece o peruano Fabrício perguntando o que tá acontecendo, eu puxei ele pra dentro do elevador “Vamos pro terraço!! Pssssiuuuu, silêncio”. Eu sei que numa aventura épica e eu passando as ordens (eu tenho um amigo de infância que com certeza consegue imaginar muito bem meu comportamento nesse tipo de situação) e eles rindo muito com meu plano mirabolante de dominar o terraço. Conseguimos subir e fomos expulsos, subimos pelo outro lado, expulsos pelos funcionários indianos mais uma vez. Mas tínhamos que conquistar o terraço! Então finalmente, fazendo tudo direitinho, conseguimos subir sem ninguém perceber, nos escondemos atrás dos ar condicionados e esse foi o momento mais engraçado. Imaginem um brasileiro, um peruano, uma chinesa e uma romena, um olhando pra cara do outro, adrenalina pura, fazendo sinal de silêncio um pro outro, coração pulando pela boca e as lanterninhas dos guardinhas do hotel passando de um lado pro outro. Quando eles disseram algo do tipo “não tem nada aqui!”. E foram embora… vivaaaa o terraço é nosso! Os três que estavam comigo olharam pra mim e agradeceram e estavam todos eufóricos porque a gente tinha conseguido dominar o terraço. Mas infelizmente depois de alguns minutos alguém seguiu o Fabian da Colômbia que foi fazer não sei o quê no terraço e nos descobriram… mas valeu à pena a aventura. Até agora quando eu olho pro Fabrício ou pra Jenifa (a Alina mora em Chennai), a gente ri lembrando da aventura do terraço.

Encerrei a noite num hotel em algum outro lugar de Pondicherry, fomos chamados (eu e minha equipe) no último minuto pela Amanda. O nosso ônibus nos levou numa festa (mas quase ninguém foi com a gente porque a maioria ou ficou no hotel ou tinha ido pra algum outro lugar) nesse hotel. Lá tínhamos comida boa de graça e cervejinha a 100 rúpias, nada mal! No fim da noite achamos algumas indianas (gatinhas, por sinal) tocando violão. O que vocês acham que Leonardo fez? Claro! Peguei um dos violões e toquei junto com elas, elas adoraram! (Porque eu não fui alocado pra Chennai!?) Encerramos a noite voltando pro hotel bem cansados e satisfeitos com a comida muito boa que tinha de graça por lá.

Para encerrar essa postagem, devo dizer que no ônibus de volta pra Chennai me bateu uma saudade de casa, pois havia já alguns dias que eu não falava direito com meus pais pelo Skype por estar tão ocupado e com tanta coisa acontecendo. Mas é normal quando se está longe de casa, você do nada percebe que está a sete mares de distância dos seus pais e que precisa ser paciente. Não dá pra simplesmente entrar num ônibus ou ligar o carro pra ir ver eles.

No mais, estou muito bem e feliz pela experiência. Esse intercâmbio que estou tendo é realmente muito especial, não sei se indo para a Nova Zelândia, Canadá, Estados Unidos ou Europa você tem essa chance de trocar experiências da forma que é aqui na Índia, por que aqui ninguém é nativo, ninguém é de casa. Sem preconceito ou exclusão com os indianos (até porque nessa loucura de país onde até eu sei palavras de uma língua que um outro indiano não sabe, a Índia é diferente!), mas é engraçado olhar pra um estrangeiro do intercâmbio e dizer “um dos nossos!”, como se ele fosse do mesmo estado ou da mesma cidade que a gente. Aqui a gente se vê de uma forma diferente e as barreiras culturais caem, somos todos iguais, ganhamos o mesmo salário e pegamos os mesmos trens lotados. Eu afirmo mais uma vez, aqui é diferente e é especial.

Um grande abraço pra todos vocês. E para aqueles que pensaram, “ufa, ele acabou!”. Por favor vão ler mais que isso aqui não foi nada! Espero que isso aqui possa servir de estímulo para que você seja um pouco mais aventureiro e queira descobrir o mundo lá fora, ou que ao menos com esse texto viaje comigo e mude sua opinião sobre o que na verdade todos nós somos. Até mais!